Jesus e as questões do divórcio e do celibato
Emídio Brasileiro
emidiobrasileiro@gmail.com
Razões irrelevantes, no caso de dissolução do casamento, e uma ideia egoísta e orgulhosa, no caso de abstinência sexual, não se apresentam como justificativas plausíveis
Aproximaram-se de Jesus alguns fariseus para tentá-lo. E perguntaram: “É lícito a um homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?”
Ele lhes respondeu: “Que vos ordenou Moisés?”
Disseram: “Moisés permitiu escrever carta de divórcio e repudiar.”
Respondeu-lhes Jesus: “Não lestes que no princípio o Criador os fez homem e mulher? E que disse: ‘Por isso o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher e serão os dois uma só carne?’[1] Assim, já não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não separe.”
Replicaram eles: “Então por que Moisés ordenou dar carta de divórcio e repudiar?”
Ele disse: “Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no início não foi assim. E eu vos digo que todo aquele que repudiar sua mulher, a não ser em caso de adultério, e casar-se com outra, comete adultério. E o que se casar com a mulher repudiada, também comete adultério.”
Em casa, os discípulos o interrogaram de novo a respeito desse assunto. E ele lhes disse: “Todo aquele que repudiar a sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira, e se a mulher repudiar o seu marido e casar com outro, comete adultério.”
Disseram-lhe os discípulos: “Se essa é a condição do homem em relação à mulher, não convém casar.”
Mas Jesus respondeu: “Nem todos compreendem essa palavra, mas somente aqueles a quem é dado. Porque há eunucos que nasceram assim, desde o ventre materno. Há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens. E há eunucos que se fizeram eunucos a si mesmos por causa do Reino dos Céus. Quem pode compreender, compreenda.” (Evangelhos de: Mateus, cap. 19, vv. 3 a 12; Marcos, cap. 10, vv. 2 a 12; Lucas, cap. 16, v. 18.)
***
Mais uma vez, os fariseus questionam o Mestre acerca de tema doutrinário complexo para tentá-lo a combater a ordem mosaica. Jesus é indagado a respeito da separação conjugal e de seu processo por meio do repúdio mediante carta de divórcio permitida por Moisés.
O Mestre é contrário à separação conjugal por razões irrelevantes. A única exceção por ele considerada é no caso de adultério, quando se materializa acentuada desarmonia esponsalícia. Ainda assim, o sublime Amigo sentencia: “O que Deus uniu, o homem não separe”, o que demonstra que ninguém se une a alguém por mero acaso. Há razões espirituais que facultam ou induzem as uniões matrimoniais, as quais devem ser respeitadas por cônjuges e terceiros. Portanto, até mesmo nos casos de adultério é possível recomeçar e reciclar o relacionamento conjugal, desde que o casal esteja disposto à reconciliação por meio do arrependimento, do perdão e do amor.
Jesus cita o livro de Gênesis: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (1:27) e “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne” (2:24). Desse modo, o Mestre embasa por meio das Escrituras o fundamento da Lei Moral de Sociedade e da Lei Moral de Reprodução, que determinam a união e o inter-relacionamento de todas as criaturas de Deus em Sua Unidade Imanente.
Mais adiante, Jesus demonstra que Moisés adaptou os seus ensinamentos de acordo com a realidade cultural de seu tempo. O Grande Legislador permitiu o repúdio, ainda que em situações que não justificavam a separação conjugal. Contudo, no entendimento de Moisés, seria melhor repudiar a mulher do que fazê-la sofrer nas mãos de um marido arbitrário e cruel. O que fez Jesus dizer: “Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no início não foi assim.”
Isso se confirma porquanto o primeiro caso de repúdio relatado nas Escrituras foi quando Abraão repudiou Agar por exigência de Sara, mesmo a contragosto, por causa de seu filho Ismael. No entanto, Abraão foi consolado com a revelação de que Deus tornaria Ismael notável líder de uma nação por ser seu filho.[2]
Jesus, no entanto, demonstrou a gravidade do adultério — cujas principais causas são o atraso e o desajuste moral — uma vez que é o resultado de inúmeros fatores relacionados ao desgaste da vida conjugal ou a paralisações evolutivas ocorridas com os cônjuges. Assim, o divórcio não é contrário às leis divinas, porém, torna-se necessário analisar os critérios para uma separação matrimonial.
Em casa, os discípulos interrogaram o Mestre a respeito dessa questão evocada pelos fariseus. Jesus voltou a censurar o divórcio devido à infidelidade conjugal ao também considerar adultério o novo casamento do repudiante. Os discípulos, porém, não compreenderam a mensagem do Mestre e disseram: “Se essa é a condição do homem em relação à mulher, não convém casar.” Isso porque consideraram impossível uma convivência matrimonial insuportável.
Há razões espirituais que facultam ou induzem as uniões matrimoniais, as quais devem ser respeitadas por cônjuges e terceiros
Segundo a cultura judaica, no tempo de Jesus ainda se permitia a poligamia legalizada, ou seja, o homem podia ter mais de uma mulher, mas a cultura monogâmica evoluiria no ambiente judaico com o entendimento acerca da família.
Ao ouvir a conclusão equivocada de seus discípulos sobre o casamento, que afirmaram não ser conveniente casar se fosse para viver toda uma existência com alguém sem vontade, o Divino Messias afirmou: “Nem todos compreendem essa palavra, mas somente aqueles a quem é dado.” E prosseguiu ao ensinar a respeito das três causas que podem levar o indivíduo à abstinência sexual, evidente que casado ou solteiro, casto ou não:
No primeiro caso: “Há eunucos que nasceram assim, desde o ventre materno.”
Há indivíduos que nascem sem condições de praticar atos sexuais devido à limitação física congênita. Também há os que nascem castos independentemente de serem celibatários ou casados e ainda de praticarem atos sexuais ou abstinência sexual. Isso porque a castidade é o estado de equilíbrio moral que envolve harmonicamente as manifestações psíquicas, emocionais e fisiológicas, as quais influenciam ou sofrem influências das energias sexuais. A castidade não está relacionada à abstinência sexual, ao casamento ou ao celibato, mas à condição moral do Espírito que lhe faculte o necessário equilíbrio e a harmonia entre as manifestações das energias sexuais e o programa evolutivo do Espírito encarnado ou desencarnado.
No segundo caso: “Há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens.”
Há indivíduos que se abstêm de relações sexuais por razões impostas por ambientes familiares, sociais ou ainda por circunstâncias alheias à vontade.
No terceiro caso: “Há eunucos que se fizeram eunucos a si mesmos por causa do Reino dos Céus.”
A abstinência sexual decorrente do celibato constitui sacrifício meritório, que vem confirmar a postura celibatária praticada em prol da Humanidade, ao visar ao bem e à justiça, sem qualquer ideia egoísta.
Terá menos mérito aquele que se sacrifica em prol da Humanidade, mesmo casado e sem se abster do relacionamento sexual? Evidentemente, não. Quando o casamento está firmado nas bases sólidas do amor, do respeito e da confiança mútua, ainda que os cuidados em relação aos filhos exijam tempo e dedicação, muito se poderá contribuir para o bem da Humanidade, sem maiores riscos de natureza sexual e psicoemocional, os quais podem surgir ou se acentuar com o celibato.
Em qualquer plano evolutivo, é muito melhor para o Espírito encarnado que ele tenha estabilidade emocional junto àqueles que ama e pelos quais é amado, independentemente de estar celibatário ou não. No entanto, por meio do casamento ou do celibato é possível evoluir quando se busca a castidade com disciplina moral e trabalho no bem.
O programa do celibato acompanhado da abstinência sexual não determina, por si mesmo, uma aceleração do processo evolutivo do Espírito encarnado. Todavia, em conjunto com os objetivos humanitários que possam exigir tal procedimento, a abstinência sexual, juntamente com o equilíbrio emocional, poderá ser de fundamental importância para a realização de determinado programa evolutivo, independentemente de se adotar ou não uma postura celibatária. O celibatário orgulhoso pode fazer muitas vítimas, arrastá-las ao desequilíbrio moral, por meio do despotismo, da vaidade ou de aparentes virtudes, minuciosamente adornadas para a idolatria e a mitificação.
A santidade está vinculada à castidade e não ao fato de se abster ou não sexualmente, seja em estado de celibato ou de matrimônio.
Jesus tratou de outros temas vinculados à convivência familiar e à vida psicossexual, e nos deixou um roteiro seguro para todos os casos: “Tudo aquilo que desejais que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, porque esta é a Lei e os Profetas.”[3]
- Gênesis, 1:27 e 2:24.
- Gênesis, 21:1–18.
- Mateus, 7:12.
- Nota da Redação: este artigo é uma adaptação de capítulo homônimo do livro Tratado dos Evangelhos, do mesmo autor.
O autor é escritor e orador espírita, membro da Academia Espírita de Letras do Estado de Goiás e da Academia de Letras de Goiânia. Autor do livro "Tratado dos Evangelhos". Instagram: @emidio.brasileiro.
Indicamos a leitura
Tratado dos Evangelhos é uma obra de fôlego dedicada à harmonização dos quatro evangelhos canônicos, oferecendo ao leitor espírita uma visão contínua, ordenada e profundamente esclarecedora da mensagem de Jesus. Emídio Brasileiro organiza os relatos evangélicos de modo cronológico e temático, permitindo acompanhar a trajetória do Cristo com maior unidade e precisão.
Em diálogo permanente com os princípios da Doutrina Espírita, o autor analisa cada episódio com rigor histórico, sensibilidade moral e clareza interpretativa, iluminando passagens que frequentemente suscitam dúvidas ou interpretações divergentes. O livro apresenta ainda quadros e roteiros auxiliares que situam, no tempo e no espaço, os momentos mais relevantes da vida pública de Jesus.
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fevereiro | 2026
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