A nostalgia do mundo de provas e expiações
Ailton Barcelos da Costa
ailton.barceloos@gmail.com
O apego moral às paixões do passado
Todos nós, espíritas, sabemos que a Terra atravessa um longo processo de transição — que se encontra em sua fase final — entre o mundo de provas e expiações, que ainda habitamos, e o mundo de regeneração.
Allan Kardec esclarece, em A Gênese, que tão logo um orbe atinja determinado grau de maturidade para ascender na hierarquia dos mundos, ele passa, invariavelmente, por grandes crises sociais e morais. Essas crises marcam os períodos de transição entre os diferentes tipos de mundos: dos primitivos aos de provas e expiações; destes aos de regeneração; dos de regeneração aos mundos felizes; e, finalmente, destes aos mundos celestes ou divinos.
Para a humanidade encarnada, é difícil compreender plenamente esse mecanismo evolutivo. Raramente conhecemos nossa história espiritual em profundidade e, por isso, todas as calamidades — de qualquer natureza — parecem sempre inéditas. Não nos lembramos de que tais crises são recorrentes ao longo do processo evolutivo dos Espíritos e das civilizações.
No capítulo III de O Evangelho segundo o Espiritismo, Santo Agostinho nos oferece uma análise precisa da condição moral da Terra:
“A superioridade da inteligência, em grande número dos seus habitantes, indica que a Terra não é um mundo primitivo, destinado à encarnação dos Espíritos que acabaram de sair das mãos do Criador. As qualidades inatas que eles trazem consigo constituem a prova de que já viveram e realizaram certo progresso. Mas, também, os numerosos vícios a que se mostram propensos constituem o índice de grande imperfeição moral. Por isso os colocou Deus num mundo ingrato, para expiarem aí suas faltas, mediante penoso trabalho e misérias da vida, até que hajam merecido ascender a um planeta mais ditoso.”
Essas características nos são bastante familiares. Vivemos, ainda, em um mundo no qual o mal predomina, marcado por dores e sofrimentos próprios dos Espíritos resistentes à Lei de Deus.
Ao longo de centenas de existências, desenvolvemos notavelmente a inteligência. Transformamos a face do planeta desde o momento em que aqui chegamos, muitos de nós exilados de outros orbes. Criamos civilizações, impulsionamos revoluções industriais, adornamos o corpo com artefatos tecnológicos cada vez mais sofisticados. Contudo, ao olhar para a transformação moral, a pergunta se impõe: o que fizemos, de fato, nos últimos milênios como civilização?
A resposta, infelizmente, é simples: muito pouco. Basta observar o noticiário cotidiano, carregado de crimes de toda espécie, de corrupção, de episódios em que indivíduos tentam levar vantagem em tudo e a todo momento.
O progresso buscado é quase exclusivamente externo, tecnológico, enquanto se acredita que esta seja a única existência e que, portanto, seja preciso “aproveitar a vida” a qualquer custo
Kardec, novamente em A Gênese, nos recorda de que a época atual é de transição, na qual se confundem os elementos de duas gerações. Colocados nesse ponto intermediário, assistimos à partida de uma e à chegada de outra. A geração que se extingue apresenta propensão instintiva às paixões degradantes e aos sentimentos antifraternos: egoísmo, orgulho, inveja e ciúme. Já a geração que surge imprimirá ao mundo um movimento ascensional, orientado para o progresso moral que caracterizará a nova fase da evolução humana.
Entretanto, em nossa sociedade há muitos Espíritos encarnados que não desejam — ou não estão preparados — essa nova etapa que a humanidade começa a vislumbrar. Persistimos no culto ao corpo, aos instintos e aos velhos vícios. O progresso buscado é quase exclusivamente externo, tecnológico, enquanto se acredita que esta seja a única existência e que, portanto, seja preciso “aproveitar a vida” a qualquer custo.
Para uma parcela significativa da humanidade, isso se traduz no uso excessivo de bebidas alcoólicas, drogas e no culto ao sexo desregrado, apresentados como sinônimos de liberdade e felicidade. Esses Espíritos encontram-se profundamente adaptados — ou, mais propriamente, apegados — ao mundo de provas e expiações, no qual desejam permanecer. A renúncia aos prazeres fáceis e imediatos lhes parece impensável.
Defende-se, com veemência, o velho estilo de vida, sob o argumento de que “só se vive uma vez”. No entanto, tais Espíritos ainda não se encontram preparados para avançar à próxima fase do desenvolvimento espiritual: a regeneração. Longe de ser um paraíso, o mundo de regeneração representa, contudo, um espaço de repouso relativo após longas lutas, um ambiente no qual o amor começa a presidir as relações sociais e onde o bem coletivo passa a ser compreendido como extensão natural do bem individual.
Nesse estágio, aprendemos a nos importar verdadeiramente uns com os outros, como membros de uma mesma família, em âmbito local e global.
É inegável que ainda temos muito a realizar como sociedade para nos desapegarmos do estilo de vida centrado nos prazeres mundanos. Nesse contexto, é um equívoco apontar o dedo exclusivamente para a sociedade ou para os outros. A tarefa essencial é retomar o olhar para nós mesmos, investindo na reforma íntima, lutando para vencer nossos vícios e imperfeições.
Afinal, superar o “velho eu” é uma batalha diária — e uma conquista que somente cada Espírito pode realizar por si mesmo.
- KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Guillon Ribeiro. 53.ed. 4.imp. Edição Histórica. Brasília: FEB, 2016.
- Idem. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Salvador Gentile. 116.ed. Araras: Instituto de Difusão Espírita, 1990. Capítulo III — Há muitas moradas na casa de meu Pai.
O autor é Doutor em Educação Especial pela UFSCar, médium e palestrante espírita em São Carlos, SP. Autor do livro "Obsessão em tempos de transição" (Ed. O Clarim).
abril | 2026
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