Não é sábio adiar a missão
Rogério Miguez
artigosespiritas55@gmail.com
O que vim fazer de mais relevante nesta existência?
Após tomar conhecimento de que, conforme instrui O Livro dos Espíritos, todos possuem uma missão própria, é natural que nosso interesse seja despertado para conhecer qual seria a nossa tarefa particular, conforme se lê em: “Entre os Espíritos, alguns foram criados bons e outros maus? — Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, isto é, sem saber. A cada um deu uma missão, com o fim de esclarecê-los e de fazê-los chegar progressivamente à perfeição, pelo conhecimento da verdade, para aproximá-los de si. (...)”[1] (Grifo nosso.)
Ou ainda: “Em que consiste a missão dos Espíritos encarnados? — Em instruir os homens, em ajudá-los a progredir, em melhorar suas instituições, por meios diretos e materiais. Mas as missões são mais ou menos gerais e importantes. Aquele que cultiva a terra desempenha uma missão, do mesmo modo que aquele que governa ou que instrui. Tudo se encadeia na Natureza. O Espírito se depura pela encarnação, concorrendo, ao mesmo tempo, para a execução dos desígnios da Providência. Cada um tem sua missão neste mundo, porque todos podem ser úteis em alguma coisa.”[2] (Grifo nosso.)
Nesta resposta, além da confirmação sobre as muitas missões, há uma importante sinalização sobre o importância de todas: cultivar a terra representa elevada atribuição na Terra, o que nem sempre é visto desta forma.
Não é incomum a busca pelo atendimento fraterno na casa espírita para se conhecer qual seria a missão do consulente. É bem direta a conversa: — Estou aqui para saber o que vim fazer na Terra, o que devo fazer de mais relevante nesta existência?
A maioria não terá designada, previamente, ou seja, antes de reencarnar, uma missão de grande relevância, o que se entende, pois não é possível que todos nasçam para serem artistas de renome, impulsionando a evolução das artes da Humanidade, conforme fizeram tantos no passado e, mesmo atualmente, tais como Rembrandt, Michelangelo, Rodin. Da mesma forma, não há expressivas missões em quantidade visando criar progressos nas ciências, pois não é a todo momento que nascem gênios como Pitágoras, Arquimedes, Newton, Gauss, Einstein, Stephen Hawking, apenas para citar alguns poucos exemplos na área técnica, pois estes expoentes da matemática e da física são raros e, quando reencarnam, realmente revolucionam a nossa compreensão sobre as leis divinas nesses campos. Na área médica também não se vê corriqueiramente nomes como Galeno, Hahnemann, Freud ou Jung; são Espíritos que aportam no planeta com significativos trabalhos a fazer, incomuns aos comuns. Temos também gênios no comportamento humano e, igualmente, outros que também revelam aspectos sobre o funcionamento do Universo de forma generalizada, atingindo muitas áreas do conhecimento, com mensagens atingindo a todos, tal qual se deu com a reencarnação de Allan Kardec, estruturando os princípios do Espiritismo. Esta Doutrina traduz, até o ponto em que podemos compreender, os muitos postulados que nos regem, todos criados por Deus.
É o que se depreende deste texto: “Deus confiou a alguns homens a missão de revelar sua lei? — Sim, certamente. Em todos os tempos houve homens que receberam essa missão. São Espíritos superiores, encarnados com o objetivo de fazer a Humanidade progredir.”[3]
Esta realidade não deve desanimar ninguém, até porque, em parte, é o nosso orgulho e vaidade que fazem com que almejemos deter posições de grande destaque, de modo a, quem sabe, sermos também incluídos nos anais da História.
Como os Espíritos mais evoluídos nos conhecem, de modo muito mais profundo do que nós mesmos, informaram-nos que existem muitas missões, incontáveis, mas para Deus, todas de destaque, não importa quem esteja incumbido de realizá-la.
Não há missão maior ou menor, tudo é proporcional e perfeitamente adequado ao estágio evolutivo do Espírito, jamais excedendo as suas possibilidades de lidar com as específicas missões, provas e expiações — as últimas, em princípio, também estão sempre presentes em qualquer jornada evolutiva.
É de notar que se destacam, entre estas ordinárias missões, a missão da paternidade e da maternidade: “Os Espíritos dos pais exercem alguma influência sobre os dos filhos, após o nascimento destes? — Muito grande. Conforme já dissemos, os Espíritos devem contribuir para o progresso uns dos outros. Pois bem, os Espíritos dos pais têm por missão desenvolver os de seus filhos pela educação. Isto constitui para eles uma tarefa: se falharem, serão culpados.”[4]
Ou ainda em: “Pode-se considerar a paternidade como missão? — Sem dúvida, é uma missão. É, ao mesmo tempo, um dever muito grande e que envolve, mais do que o homem pensa, a sua responsabilidade quanto ao futuro. Deus colocou o filho sob a tutela dos pais, a fim de que estes o dirijam pelo caminho do bem, (...)”[5]
Assim, devemos estar atentos à forma como conduzimos a educação dos filhos — preciosa missão —, pois, verdadeiramente, eles são todos filhos de Deus, o criador de tudo e de todos, antes de estarem provisoriamente sob a nossa guarda.
Diante desta revelação, o campo de atuação dos encarnados no que tange às suas missões se agiganta exponencialmente, podendo-se afirmar que na família encontra-se a primeira e mais importante missão.
Entretanto, há alguns pouco versados no funcionamento das leis divinas ajuizando da seguinte forma: — Ora, se terei tantas oportunidades quantas forem necessárias, por meio da lei da reencarnação, para obter sucesso na minha particular missão, por que não atendê-la de forma homeopática, ou seja, em pequenas doses de esforços, assim, não me esgoto, não me canso em demasia, não me estresso e conduzo a existência sem grandes preocupações.
À primeira vista, até parece uma política razoável, inteligente, perspicaz, estratégica para conduzir a jornada sem grandes sobressaltos. Contudo, também é da lei que se o Espírito não completa a sua missão no período delimitado, ou seja, durante os anos previamente estabelecidos de duração do corpo físico antes de reencarnar, é preciso terminar esta tarefa na próxima ou nas futuras reencarnações. Não se adiam compromissos sem que estes se apresentem, novamente, mais à frente.
Acontece que quando não cumprimos as nossas obrigações com as ferramentas e meios disponíveis para tanto, na outra vida estas condições se alteram necessariamente, caso contrário, não ocorre a educação do Espírito, objetivo maior proporcionado pelas muitas existências.
Desta forma, antes de adiar compromissos, pensemos em: — Quando voltaremos para a Terra, se é que retornaremos a este planeta? Em quais condições: país, cidade, cultura...? Quem serão os meus familiares e companheiros de jornada, estaremos juntos de novo? Continuarei a ter certas facilidades materiais, caso as detenha agora? Meu corpo físico ainda se apresentará razoavelmente saudável?...
Não há missão maior ou menor, tudo é proporcional e perfeitamente adequado ao estágio evolutivo do Espírito, jamais excedendo as suas possibilidades de lidar com as específicas missões, provas e expiações (...)
Sim! Literalmente, só Deus sabe as respostas a todas estas indagações, mas uma coisa é certa: se negligenciamos as oportunidades de hoje, amanhã, estas dádivas não serão mais as mesmas e devem sofrer controle adicional, pois os mesmos dons não se oferecem ao Espírito outra vez.
Tomemos um simples exemplo, relacionado a educação e instrução do indivíduo, de modo a entender bem este princípio. O Espírito renasce em família tranquila do ponto de vista material e, nestas condições, se esperava que ele aproveitasse para estudar, aprimorar-se intelectualmente e ajudar aqueles que não puderam contar com esta facilidade, distribuindo sabedoria e informações a todos. Mas, o que faz o Espírito? Não aproveita a condição de ouro em que viveu, deixando de lado os estudos para apenas usufruir o que os bens materiais proporcionam, e a vida passa. Na outra existência, quem sabe, ressurgirá no seio de grupamento familiar com algumas dificuldades materiais e, desta forma, será obrigado a trabalhar para ajudar no sustento de todos e, se fizer esforços adicionais, estudará à noite, com algum sacrifício pessoal. Contudo, o que faz o Espírito, descuidado? Não se aplica corretamente às atividades laborais e sobre estudar à noite diz: nem pensar! E a vida passa. Retorna, uma vez mais, agora em um grupo que quase nada possui, senão dificuldades, lutas contínuas de sol a sol, entretanto, ele deseja agora ardentemente estudar, mas não existem mais as antigas facilidades. Como resultado, sem recursos para adquirir livros e cadernos, improvisa folhas de papel de pão para poder escrever, e aguarda a caridade alheia para obter alguma ponta de lápis e canetas usados. Almeja adquirir conhecimentos superiores, ilustrar-se, mas só à custa de muitos esforços...
Alguns indagam como podem distribuir o tempo ao longo do dia, isto é, há muitas atividades, ocupações comuns do cotidiano, e há também a particular missão. Desse modo, como encontrar a sabedoria no uso do tempo?
André Luiz possui uma sugestão interessante quando abordou o tema trabalho: “Situar em posições distintas as próprias tarefas diante da família e da profissão, da doutrina que abraça e da coletividade a que deve servir, atendendo a todas as obrigações com o necessário equilíbrio.”[6]
Na família, profissão, religião e na sociedade, o homem pode atuar, não há outra situação possível. Entretanto, as interações entre estes quatro setores devem ser muito bem avaliadas por todos para aprender como distribuir equilibradamente o seu tempo, sem sacrificar qualquer delas em nome de outra.
Em primeiro lugar vem a família, mas não se pode usar sempre razões familiares para fugir das tarefas religiosas. A atividade laboral também não deve impedir que o indivíduo participe em tarefas de caridade em organizações várias sem fins lucrativos, nem deve ser a razão para que o trabalhador não ofereça a necessária atenção aos seus familiares. Por outro lado, as práticas religiosas não podem servir de subterfúgio para negligenciar a família, muito menos para lesar o tempo de trabalho na organização laboral. Estas são apenas algumas situações para despertar a nossa atenção no uso desequilibrado do tempo útil e da dedicação que devemos manter em relação à particular missão de cada um.
É isso. Observemos com muito cuidado as dádivas que agora nos são oferecidas por Deus e não deixemos para amanhã, o que se pode e deve ser feito hoje.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto. 3.ed. Comemorativa do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: FEB, 2007. pt. 2, cap. IX. q. 115.
- Ibidem. q. 573.
- Ibidem. q. 622.
- Ibidem. q. 208.
- Ibidem. q. 582.
- VIEIRA, Waldo. Conduta espírita. Pelo Espírito André Luiz. 13.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1987. No trabalho.
O autor é engenheiro, articulista e expositor, atuando no movimento espírita em São José dos Campos, SP. Autor do livro "Obsessão em 100 respostas" (Ed. O Clarim).
junho | 2026
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