O poder da escuta ativa
Carlos Abranches
gutoabr@gmail.com
O trabalhador do bem deve desenvolver sua capacidade de ouvir com qualidade e humanização, atitude que tem a força de fazer uma grande diferença na vida de quem com ele interage
Eis um dos mais significativos paradigmas da comunicação: escutar é tão importante quanto falar. Contudo, o que parece simples, na verdade não o é. Tem muita gente que não sabe escutar. Prefere falar até o ponto de deixar todo mundo esgotado de tanta verbalização.
Comunicação é uma via de mão dupla. Numa das pistas dessa estrada, você diz o que quer, o que sente, pensa ou acredita ser sua verdade. Na outra, você silencia para dar direito ao seu interlocutor de também se expressar. Se não houver silêncio de uma das partes, não há diálogo, mas monólogo.
O que pretendemos com essa reflexão? Melhorar fortemente a capacidade do trabalhador do bem de ouvir com qualidade e humanização, atitude que tem a força de fazer uma grande diferença na vida de quem com ele interage.
No contexto de nossas convivências, agir assim pode significar a confiança e a simpatia de quem interage conosco. Excelência na comunicação não se encontra na esquina, nem à venda em farmácia. Ela nasce na consciência amadurecida do ser consciente, a manifestar-se em cada palavra, olhar e demonstração de atenção e interesse pelo outro.
Os especialistas em aprofundamento da comunicação de qualidade sugerem modelos diferentes de escuta, e seus temas diretamente relacionados. Nas referências bibliográficas deste artigo[1] deixo algumas sugestões para quem se interessar em aprofundar o assunto. Akhtar (2016), por exemplo, considera quatro tipos de escuta, em especial.[2] São eles:
- Escuta objetiva
- a) Escuta: entendemos que a escuta correta não se restringe às palavras faladas do outro. Ela também inclui prestar atenção aos seus silêncios e aos sinais não verbais oferecidos por ele.
- b) Atenção plena: também conhecida como mindfulness, pressupõe uma conduta mental sutil e poderosa. Envolve relaxamento interior, foco, concentração, isenção de julgamento e de leitura mental. Na hora em que o outro estiver manifestando-se, é fundamental não fazer interpretações antecipadas. O segredo é escutar com muita atenção.
- c) Leitura mental: é muito importante não tentar “antecipar” o que ele esteja ainda por falar, evitando tirar conclusões antecipadas sobre o que pode ou não estar em sua mente. Tenha a certeza de que, se ele sentir-se confiante, falará sobre o que o incomoda.
- d) Atenção: deve-se prestar atenção no que o outro está falando, mas também, e sobretudo, em como ele está falando. O processo é tão valorizado quanto o conteúdo.
As verdades do próximo brotam, primeiro, pelo corpo em crise, e depois pela palavra, através de uma confissão, um desabafo ou um choro tímido
- Escuta subjetiva
- a) Se quem deseja aprender a ouvir está atento aos movimentos internos de seu interlocutor, está perfeitamente apto a captar as mensagens não verbais que ele está emitindo.
- b) Algumas dessas mensagens não verbais são emitidas pelo corpo, através de áreas enfraquecidas, alergias, crises respiratórias agudas, musculatura tensa e enrijecida etc.
- c) A grande ferramenta de atuação do ser consciente, nesse cenário, é usar o tempo da relação com sabedoria e sem pressa ou ansiedade. As verdades do próximo brotam, primeiro, pelo corpo em crise, e depois pela palavra, através de uma confissão, um desabafo ou um choro tímido.
- d) É fundamental demonstrar que estamos inteiramente comprometidos com a escuta diante do próximo. Só assim ele adquire confiança e se sente acolhido para prosseguir aprofundando na comunicação. Muita gente não está doente, quer apenas atenção e um pouco de carinho. As respostas corporais interessadas de quem ouve reverberam com a comunicação inconsciente da pessoa.
Quando a escuta é boa, há um processo de identificação projetiva, em que, por parte do outro, ocorre um “depósito” de pensamentos impensáveis (que são, muitas vezes, as causas das dores e sintomas do mal que aflige a pessoa) em um outro (quem escuta), o receptor, que se encontra em melhor condição fisiopsíquica para metabolizá-los e devolvê-los ao sujeito aos poucos.
- Escuta empática
- a) Intuição: é importante confiar na intuição, que pode abrir caminhos importantes rumo ao mundo interior das preocupações do outro. Ele manda as pistas, e nós abrimos os atalhos. No fundo, ele quer ser descoberto, só tem medo de se expor para não sofrer de novo, e confia em quem o escuta para fazer esse trajeto. É por isso que ele oferece dicas, para que o interessado não erre o alvo.
- b) Empatia e intuição: entendimento rápido e profundo.
- c) A empatia está para os afetos e os impulsos; a intuição está para o pensamento.
- d) É importante resistir ao impulso de tirar conclusões apressadas, no que diz respeito ao mundo emocional de nosso interlocutor. A verdade tem seu tempo, e às vezes, ainda não chegou o momento do outro ouvir o que se passa com ele. E talvez nem seja você quem vá lhe dar esse parecer.
Diante de sintomas de caos emocional, o que fazer? É muito importante colocarmo-nos corporalmente à disposição daquele com quem interagimos. Ele precisa “sentir” que tem alguém ali, de corpo e alma, com ele. Isso já basta para acionar seus sensos de autopreservação, e se for seu desejo, abrir-se contigo, no que ele considerar necessário.
- Escuta intersubjetiva
- a) Reciprocidade: aqui importa como ouvinte e interlocutor estão interagindo, ou seja, como você ouve o outro e como ele registra e interpreta o que você traz.
- b) Podemos chamar esse movimento de “fluxo perpétuo”, em que os dois interagem ativamente e saem beneficiados.
- c) Tanto a objetividade quanto a subjetividade são caminhos necessários para o conhecimento e a melhoria dos processos de comunicação.
- d) Isso remete a uma importância fundamental: observe o impacto de suas afirmativas sobre o indivíduo. Quanto puder, fale pouco, e ao falar pouco, diga muito com poucas palavras.
Conceitos importantes para essa reflexão
- a) Maturidade e saúde mental consistem na capacidade de manter o entusiasmo e um razoável senso de importância pessoal. Se você conseguir ajudar quem o procura a restaurar esses aspectos emocionais, dará uma contribuição inestimável à sua felicidade.
- b) Se for preciso, faça um esforço a mais para compreender recados confusos. No fundo, o outro pode estar mexendo com o que há de mais dolorido em seu mundo interior (uma rejeição, abandono ou ódio, por exemplo), e encontrou em você um receptor capaz de puxar, lá do fundo de suas necessidades, o pouco de luz que restou de seu direito à felicidade.
- c) Se de todo você não identificar problema algum em seu interlocutor, tanto melhor. Siga seu trabalho e seja feliz com o que você já descobriu em si mesmo, que lhe garante a convicção de que é um ser humano capaz de oferecer o melhor de si para um mundo mais humano e acolhedor.
Emmanuel é muito objetivo ao tratar do tema aqui em questão. No livro Opinião Espírita,[3] ele ensina que a escuta é uma forma de beneficência e um antídoto para o tumulto das relações humanas. O benfeitor inicia sua reflexão, afirmando que “tumulto e vozerio, nos atritos humanos, pedem um tipo raro de beneficência — a caridade de saber ouvir”.
Na sequência de seu raciocínio, afirma, com clareza: “sempre que possas, ouve calmamente, diminuindo a aflição que lavra no mundo”. Depois acrescenta, afirmando que “geralmente, os que te procuram o entendimento para descarregar as agonias da alma, conhecem de sobra o calibre da cruz que eles mesmos colocaram nos ombros. Rogam-te apenas alguma pequenina parcela de energia que lhes assegurem mais alguns passos, caminho adiante”.
Emmanuel conclui, reforçando: “Aprendamos a ouvir para auxiliar, sem a presunção de resolver.”
Ressuma dessa mensagem, dentre tantas outras que abordam o tema e que encontramos na literatura espírita, os seguintes pilares reflexivos:
O silêncio compreensivo. Frequentemente, quem nos procura não precisa de conselhos imediatos ou de sermões, mas, sim, de um coração fraterno e do silêncio de quem compreende. A escuta amorosa funciona como o óleo essencial para estimular o funcionamento de um motor desajustado.
Evitar o julgamento. Em suas instruções, Emmanuel adverte para que não se interrompa quem fala com a “vara do reproche” (julgamentos). Quem desabafa, geralmente, já tem consciência de seus próprios erros.
Auxílio sem presunção. Agir sem presunção é ativar os canais sutis da humildade diante da escuta afetiva. O papel do ouvinte é oferecer apoio para que a pessoa encontre energia e dê mais alguns passos no caminho, em busca de suas próprias soluções.
Em face dessas ponderações, espero que cada um se conscientize de que ouvir com qualidade é um sublime exercício de caridade diante do próximo, e que para viver essa experiência com elevação, é preciso aprender a falar menos e a ouvir com respeito, para que, em breve tempo, esse comportamento seja espontâneo no mais profundo de nossa intimidade.
- Aqui estão algumas sugestões de leitura sobre a arte de escutar com qualidade.
- MILLETTE, André. A entrevista psicológica na relação de entre-ajuda. São Paulo: Edições Paulinas, 2000.
- MIRANDA, Clara; MIRANDA, Márcio Lúcio. Construindo a relação de ajuda. Belo Horizonte: Editora Crescer, 1986.
- POWELL, John; BRADY, Loretta. Arrancar Máscaras! Abandonar papéis! São Paulo: Edições Loyola, 1995.
- AKHTAR, Salman. Escuta Psicanalítica: métodos, limites e inovações. São Paulo: Blucher, 2016.
- XAVIER, F.C.; VIEIRA, Waldo. Opinião Espírita. Pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz. Brasília: FEB/CEC, 2024. Cap. 38.
O autor é jornalista, filósofo e psicanalista. Mineiro de Juiz de Fora, é residente em São José dos Campos, SP, escritor e divulgador da Doutrina Espírita, e autor de oito livros.
outubro | 2026
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