Por que devemos cultivar uma vida digna?
Anselmo Ferreira Vasconcelos
afv@uol.com.br
Menosprezamos, não raro, a posição que ocupamos e o exemplo comportamental que nos caberia dar
Ao fazer uma comparação a respeito dos problemas sociais, morais e políticos da atualidade com os do tempo em que Jesus esteve na Terra, o Espírito Amélia Rodrigues concluiu, conforme consta na obra Luz do Mundo (psicografia de Divaldo Pereira Franco), que são muito semelhantes. Para ela, tal quadro ainda persiste porque Jesus continua sendo desconhecido e ignorado pela humanidade. De fato, recorremos muito ao nome do Mestre dos Mestres, mas nem por isso nele miramos como real padrão e modelo de comportamento. Em decorrência disso, o homem moderno permanece arrastado pela ilusão do ter e possuir, pouco ou nada construindo efetivamente à sua espiritualidade.
Exatamente como nos tempos de Jesus, observa-se hoje um grande contingente de pessoas ansiosamente devotadas à acumulação exclusiva de riquezas e poder, menosprezando, não raro, a posição que ocupam e o exemplo comportamental que lhes caberia dar. De erro em erro e de excesso em excesso, esses indivíduos vão desprezando, de forma contumaz, a advertência do Senhor de que receberemos “segundo as nossas obras”. A despeito das condições excepcionais que desfrutam em suas existências, raramente cogitam a respeito do que os aguardam além-túmulo. Posto isto, cumpre reconhecer que o Espírito André Luiz desvendou magistralmente em seus livros o que significa a advertência evangélica concernente ao “choro e ranger de dentes”.
Por não primarem pelo cultivo de uma vida digna, perfilada às recomendações e diretrizes do Evangelho, muitos indivíduos não se habilitam a desfrutar de uma “morte libertadora”. Nesse sentido, o Espírito Áulus, citado por André Luiz no livro Nos Domínios da Mediunidade (psicografia de Francisco Cândido Xavier), esclarece que é comum o indivíduo desencarnar com os pensamentos manietados a “situações, pessoas e coisas da Terra”. Ou seja, leva-se uma “pesada bagagem” para o lado de lá, e quanto mais errática e tortuosa tenha sido a vida findada da criatura, pior será a sua colheita.
André descreve com riqueza de detalhes em outra obra de sua autoria, No Mundo Maior, capítulo No Limiar das Trevas (também psicografada pelo Francisco Cândido Xavier), as suas dolorosas impressões como os trechos a seguir:
“Laceravam-me o coração as vozes lamentosas dispersas a se evolarem para o céu de fumo! Não, não eram lamentações apenas; à proporção que nos adiantávamos, descendo, modificava-se a gritaria; ouvíamos também gargalhadas, imprecações.
“Estacamos em enorme planície pantanosa, onde numerosos grupos de entidades humanas desencarnadas se perdiam de vista, em assombrosa desordem, à maneira de milhares de loucos, separados uns dos outros, ou aos magotes, segundo a espécie de desequilíbrio que lhes era peculiar.”
Mais adiante em sua rica narrativa ele cogita:
“Pareceu-me que aquele ‘povo desencarnado’ não se dava conta da própria situação, pelo que me foi possível ajuizar de início.
“Enquanto densas turbas de almas torturadas se debatiam em substância viscosa, no solo, onde andávamos, assembleias de Espíritos dementes enxameavam não longe, em intermináveis contendas por interesses mesquinhos.
“A paisagem era francamente impressionante pelos característicos infernais que nos circundavam. Notando a displicência de muitos daqueles irmãos infelizes, não sopitei as lucubrações que me surgiam.”
Minucioso em sua descrição, o conhecido mentor espiritual aduz: “(...) Certos grupos volitavam a pequena altura, como bandos de corvos negrejantes, mais escuros que a própria sombra a envolver-nos, ao passo que vastos cardumes de desventurados jaziam chumbados ao solo, quais aves desditosas, de asas partidas...”
E o seu instrutor, Calderaro, a fim de satisfazer a sua justa ânsia de aprendizado, esclarece que tais entidades vivem preocupadas consigo mesmas e, em seus corações, armazenam essencialmente sentimentos rasteiros pelos quais demandarão longo tempo para deles se libertar. A fim de que não pairasse dúvida, fornece surpreendente revelação:
“(...) Aqui, no entanto, se congregam verdadeiras tribos de criminosos e delinquentes, atraídos uns aos outros, consoante a natureza de faltas que os identificam. Muitos são inteligentes e, intelectualmente falando, esclarecidos, mas, sem réstia de amor que lhes exalce o coração, erram de obstáculo a obstáculo, de pesadelo a pesadelo... O choque da desencarnação para eles, ainda impermeáveis ao auxílio santificante, pela dureza que lhes assinala os sentimentos, parece galvanizá-los na posição mental em que se encontravam no momento do trânsito entre as duas esferas, e, dessa forma, não é fácil de logo arrancá-los do desequilíbrio a que imprevidentes se precipitaram. Retardam-se, às vezes, anos a fio, obstinando-se nos erros a que se habituaram, e, vigorando impulsos inferiores pela incessante permuta de energias uns com os outros, passam, em geral, a viver não só a perturbação própria, mas também o desequilíbrio dos demais companheiros de infortúnio.”
E arremata a sua explicação afirmando que:
“(...) Aqui, os avarentos, os homicidas, os cúpidos e os viciados de todos os matizes se agregam em deplorável situação de cegueira íntima. Formam cordões compactos, inclinando-se mais e mais para os despenhadeiros. Cada qual possui romance horrível, de angustiosos lances. Prisioneiros de si mesmos, cerram o entendimento às revelações da vida e restringem os horizontes mentais, movimentando-se em seu próprio interior, em ação exclusiva, nos impulsos primários, a cultivar o pretérito que deveriam expungir. Melhorando, são assistidos por ativas e abnegadas congregações de socorro que aqui funcionam. (...).”
Considerando a lúgubre paisagem, Calderaro adverte que fácil é desprezar o caminho reto, muito difícil; no entanto, o alto preço a pagar é inevitável. Reportando-se à condição de determinadas entidades infelizes desencarnadas observa que:
“Este bando de Espíritos miseráveis, que se movimentam como lhes é possível, é constituído de antigos negociantes terrenos, cujo exclusivo anseio foi amontoar dinheiro para satisfazer a própria cupidez, sem beneficiar a ninguém. O ouro, que transitoriamente lhes pertencia, jamais serviu para semear a gratidão num só companheiro de jornada humana. Famintos de fortuna fácil, inventaram mil recursos de monopolizar os lucros grandes e pequenos, em nada lhes interessando a paz do próximo. Foram homens de pensamento ágil, sabiam voar mentalmente a longas distâncias, garantindo êxito absoluto às empresas materiais que levavam a termo com finalidade exclusivamente egoística. Não lhes incomodava o sofrimento dos vizinhos, ignoravam as dificuldades alheias, despreocupavam-se do valor do tempo em relação ao aprimoramento da alma. Queriam unicamente acumular vantagens financeiras, e nada mais. Divorciados da caridade, da compreensão e da luz divina, criaram para si mesmos o mito frio e rígido do ouro, fundindo com ele a mente vigorosa e o tacanho coração... Escravizados, agora, à ideia fixa de ganhar sempre, voam pesadamente aqui e acolá, dementados e confundidos, procurando monopólios e lucros que não mais encontrarão.”
(...) Calderaro adverte que fácil é desprezar o caminho reto, muito difícil; no entanto, o alto preço a pagar é inevitável
Até a publicação das obras de André Luiz, muito pouco se sabia sobre os padecimentos dos Espíritos recalcitrantes à incorporação do ideal divino. Seus livros, desse modo, trazem a lume o significado das “muitas moradas da Casa do Pai” com extrema lógica de apreciação. Afinal de contas, ele mesmo padeceu por anos nas regiões umbralinas, já que fora um suicida inconsciente. Cumpre lembrar ainda que na região acima aludida, André reencontra o seu querido avô sob penosa situação expiatória.
De modo geral, os trechos aqui resgatados sugerem, com cristalina clareza, que ter uma vida digna na dimensão material é o único meio para se desfrutar de paz na espiritualidade. Em outras palavras, representa a conquista dos tesouros da alma, isto é, aqueles que, segundo Jesus, “as traças não roem nem a ferrugem corrói”. Dito de outro modo, comportamento estoico, desenvolvimento de virtudes, compromisso com a prática do bem e tolerância com os semelhantes certamente contribuem para erigir uma existência espiritualmente saudável. O resultado provavelmente será uma desencarnação sob amorosa assistência e um acolhimento fraternal no Plano Maior. Como também pondera o Espírito Emmanuel, no livro Roteiro (psicografia de Francisco Cândido Xavier), as revelações das entidades espirituais estimulam-nos a abrigar ideais superiores e propósitos mais edificantes.
Assim sendo, busquemos o conhecimento da verdade em fontes puras, reflitamos a respeito de como temos nos conduzido em nossa presente jornada e, sobretudo, averiguemos se temos servido a Deus, o Senhor da Vida, ou a Mamon.
O autor é escritor, articulista e pesquisador independente.
março | 2026
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