Saber ouvir: a arte silenciosa da evolução humana e espiritual
Adauto Santos
adauto.santos@gmail.com
É uma atividade complexa que envolve a inteireza do ser, demandando presença, interpretação, reflexão e, sobretudo, uma genuína abertura do coração
Num mundo caracterizado pelo ruído incessante, pela velocidade da informação e pela primazia da fala, a arte de saber ouvir emerge não apenas como uma habilidade social útil, mas como um imperativo ético e espiritual para a construção de uma existência mais plena e significativa. Saber ouvir transcende em muito a simples capacidade fisiológica de captar sons. É uma atividade complexa, que envolve a inteireza do ser, demandando presença, interpretação, reflexão e, sobretudo, uma genuína abertura do coração.
Enquanto a sociedade investe em cursos de oratória, incentivando cada indivíduo a amplificar sua voz, a escutatória — termo que define a arte profunda de escutar — permanece um dom raro, um presente de poucos, mesmo tendo valor incalculável para a pacificação dos conflitos humanos e a aceleração do processo evolutivo do Espírito.
Sob a lúcida perspectiva do Espiritismo, saber ouvir revela-se um exercício multidimensional. É uma caridade ativa, um instrumento de autoconhecimento, uma via de comunicação com o plano espiritual e uma prática de humildade que nos aproxima das Leis Divinas. Compreendemos que a escuta qualificada é um dos alicerces para a construção do homem novo, aquele que, seguindo os passos do Cristo, prioriza o entendimento antes da retórica, a compaixão antes do julgamento e a conexão antes da correção.
A essência e os obstáculos da verdadeira escuta
O ato de ouvir verdadeiramente inicia-se com uma decisão consciente: a de silenciar o diálogo interno para criar um espaço de acolhimento para o outro. Isto significa ir além das palavras pronunciadas, captando as entonações, os silêncios eloquentes, a linguagem corporal e a emoção subjacente. É uma escuta que analisa, reflete e pondera, recusando-se a cair no automatismo das respostas prontas.
O grande obstáculo para se aprender a ouvir é a tendência quase reflexa de escutar já pensando em retrucar, e não em entender. Este é o ruído do ego, que se antepõe à genuína conexão, transformando um diálogo potencialmente enriquecedor em um duelo de monólogos.
A metáfora da carroça vazia é profundamente ilustrativa dessa dinâmica. Quanto mais vazia de conteúdo substancial, de autoconhecimento e de quietude interior está uma pessoa, mais barulho ela tende a fazer. Por outro lado, quem ouve, aprende; quem aprende, se torna melhor. A escuta é, portanto, uma postura de humildade intelectual e espiritual, que reconhece que cada interlocutor, independentemente de sua condição, pode ser um mestre, trazendo uma lição necessária para nossa evolução.
Duas qualidades são centrais nesse processo: a tolerância e a empatia. A primeira consiste em evitar julgamentos precipitados e manter a mente aberta antes de reagir. A segunda vai um passo além da ética, pois enquanto a ética nos convida a fazer ao outro o que gostaríamos que nos fizessem, a empatia exige um esforço superior: é colocar-se no lugar do outro e tentar sentir como se ele o fosse, compreendendo seus gostos, suas dores e suas expectativas.
Os múltiplos benefícios e as dimensões da escuta
Os benefícios de cultivar essa habilidade permeiam todas as esferas da vida. No âmbito pessoal, constrói relacionamentos mais saudáveis e profundos, pois reduz drasticamente os mal-entendidos, frequentemente gerados por escutas parciais ou distorcidas. No campo profissional, é indispensável para a liderança eficaz, a resolução pacífica de conflitos e o trabalho em equipe. Socialmente, a escuta empática fortalece a tecla da compaixão, permitindo-nos perceber a humanidade compartilhada por trás de cada rosto.
É importante notar que saber ouvir não é uma modalidade única. Existem diferentes formas de escuta, cada uma adequada a um contexto. Porém, a mais transformadora no campo das relações humanas é a escuta empática, cujo único objetivo é entender o mundo interior do outro, sem a intenção inicial de concordar, discordar ou dar conselhos.
Um dos maiores erros na tentativa de escuta é o que se pode chamar de sequestro da narrativa, quando alguém compartilha uma dor e recebe como resposta: pior aconteceu comigo. A dor alheia é invalidada e a conversa desviada para a experiência de quem deveria estar ouvindo. Uma dor, por menor que pareça, pode ser imensa para quem a sente.
As dimensões espirituais da escuta: de si mesmo a Deus
A proposta espírita amplia significativamente o conceito de escuta, convidando-nos a exercitá-la em planos transcendentais.
Ouvir a si mesmo é o fundamento de todo o processo. É o que os gregos antigos chamavam de “conhece-te a ti mesmo”. É fazer-se perguntas: por que reagi dessa forma? O que esta mágoa me está a dizer sobre mim? Quais são as minhas reais necessidades?
Como indicado por Kardec nas questões 919 e 919a de O Livro dos Espíritos, são ferramentas como o exame de consciência. Quem não se ouve vive na superfície de si mesmo, projetando nos outros suas sombras e reagindo de forma automática aos estímulos externos. A grande descoberta é que ao perceber nossas próprias e enormes dificuldades de modificação, tornamo-nos naturalmente mais tolerantes com as imperfeições alheias.
Ouvir Deus é o passo seguinte. Joanna de Ângelis oferece uma distinção preciosa: orar é falar com Deus e meditar é silenciar para ouvir Deus. Ouvir Deus não é aguardar uma voz audível, mas sintonizar-se com Suas Leis, que estão inscritas nas nossas consciências e escritas nas obras básicas da Doutrina Espírita. É perceber, na quietude da meditação, a Sua paz, que excede todo o entendimento. É ouvi-Lo na mensagem de amor incondicional que nos chega através do Cristo, compreendendo que somos todos irmãos, filhos de um único Pai, o que dissolve qualquer fundamento de sectarismo e de desamor.
Ouvir a espiritualidade está intimamente ligado a esse silêncio interior. No capítulo 23 — Saber Ouvir, do livro Nosso Lar, André Luiz descreve um ambiente onde os Espíritos pactuam em não emitir pensamentos contrários ao bem, criando uma atmosfera de vibrações pacíficas. Isso nos ensina que nossos pensamentos são uma forma de comunicação ativa com o plano espiritual. A escuta, aqui, é intuitiva, manifestando-se como inspirações súbitas, intuições claras ou uma serenidade que inexplicavelmente nos invade em momentos de dificuldade.
(...) a empatia exige um esforço superior: é colocar-se no lugar do outro e tentar sentir como se ele o fosse, compreendendo seus gostos, suas dores e suas expectativas
A escuta como caridade: o dom da atenção ao próximo
A aplicação prática e mais comovente da arte de ouvir se dá no relacionamento com o próximo, nas mais variadas situações.
Ouvir quem pede ajuda é ceder o donativo da atenção. Muitas vezes, aquele que se encontra angustiado não precisa de um conselho, mas de um espaço seguro para descongestionar o trânsito das ideias infelizes, nas veredas da alma.
Ouvir quem não pede ajuda exige uma sensibilidade aguçada. Muitos, envergonhados ou desesperançados, sofrem em silêncio. A tragédia do suicídio, muitas vezes, é frequentemente o resultado extremo de uma dor que não encontrou ouvidos receptivos. Estar atento a esses sinais é uma forma de amor preventivo.
Ouvir a família é talvez um dos maiores desafios. O lar, na visão espírita, é uma escola de almas afins, reunidas para resgates e aprendizados mútuos. A familiaridade, no entanto, pode gerar dificuldades na escuta. Deixamos de ouvir com atenção, partindo do pressuposto de que já conhecemos o outro. E, muitas vezes, por não ouvir, tornamo-nos verdadeiros estranhos uns com os outros. A escuta ativa dentro de casa, ouvindo não apenas as palavras, mas os anseios e temores do cônjuge, dos filhos, dos pais, é o antídoto para esse estranhamento.
Ouvir no trabalho transforma o ambiente profissional numa escola espiritual. A colegialidade exige que sejamos exemplos de serenidade e fraternidade. Ao ouvir para além do conteúdo superficial das palavras é possível perceber situações não faladas. Um líder que sabe ouvir extrai o melhor de sua equipe. Um colega que sabe ouvir constrói laços de confiança sólidos.
Saber ouvir, portanto, longe de ser uma simples técnica de comunicação ou um sinal de passividade, revela-se uma das mais elevadas e demandantes expressões da evolução espiritual. É uma arte silenciosa, que exige treino constante, humildade para reconhecer que não somos donos da verdade e coragem para confrontar nossas próprias sombras no processo de acolher o outro. É uma caridade e uma dádiva de poucos, um presente aparentemente simples, mas cujo valor é imensurável para quem o recebe.
Integrando as dimensões horizontal (a escuta do próximo) e vertical (a escuta de si, de Deus e da espiritualidade), essa prática constitui um caminho seguro para a paz interior e para a transformação social. Ao desenvolver a capacidade de ouvir com o coração, deixamos de ser “carroças vazias”, que ressoam apenas o eco de suas próprias carências, e nos tornamos instrumentos afinados com a sinfonia da vida, capazes de harmonizar os ambientes por onde passamos.
A escuta verdadeira é um ato de amor que reflete o próprio amor divino. Ao nos esforçarmos para ouvir como Deus ouve, sem pressa, sem julgamento, com infinita compaixão, damos um passo decisivo na nossa jornada de regresso ao lar.
Que possamos, inspirados pelo Cristo, o Mestre por excelência da escuta compassiva, fazer dos nossos ouvidos portas abertas para a cura, da nossa palavra um instrumento de consolo e do nosso silêncio um abrigo de paz para todos os irmãos que conosco compartilham a caminhada terrena.
O autor é colaborador do movimento espírita e palestrante no Distrito Federal.
janeiro | 2026
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