Outubro | 2026

O aparente atraso moral da humanidade

Eriberto Kotelak

nepompmpr@gmail.com

À primeira vista, pode parecer que há uma contradição entre a realidade observada e os ensinamentos doutrinários

 

Vivemos tempos inquietantes. Ao observar o cenário mundial, somos confrontados com guerras, conflitos ideológicos e atos de violência que, muitas vezes, parecem distantes de qualquer senso de fraternidade. Em diversos casos, tais conflitos são justificados em nome da religiosidade. Muitos países estão ligados diretamente ao extremismo religioso, revelando uma contradição dolorosa: a fé, que deveria unir, é utilizada como instrumento de separação.

Chama atenção, também, o perfil de muitos dos envolvidos nessas situações, pois são, frequentemente, jovens, Espíritos que, à luz da Doutrina Espírita, estariam destinados a impulsionar o progresso moral da humanidade. Paralelamente, no cotidiano das famílias, observa-se um fenômeno igualmente preocupante: o crescimento da apatia, da falta de propósito, do desinteresse por valores elevados e, em alguns casos, a inclinação à agressividade e à rebeldia.

Diante desse quadro, surge uma inquietação legítima: estaríamos presenciando um retrocesso moral da humanidade? Estariam os Espíritos reencarnando em condições piores do que no passado? E mais profundamente, onde reside a responsabilidade por esse aparente desalinhamento com os princípios de evolução contínua ensinados pelo Espiritismo?

À primeira vista, pode parecer que há uma contradição entre a realidade observada e os ensinamentos doutrinários. Afinal de contas, a Doutrina Espírita sempre foi expressa em citar que nascemos, morremos e renascemos com o propósito de evolução. No entanto, uma análise mais ampla nos convida a reconsiderar essa percepção.

A Doutrina Espírita nunca afirmou que a evolução se dá de forma linear, constante e sem crises. Ao contrário, a história da humanidade mostra que períodos de transição são frequentemente marcados por conflitos intensos. O que hoje interpretamos como “atraso” pode, na verdade, ser um momento de ajuste coletivo, uma fase em que imperfeições ainda latentes vêm à tona para serem trabalhadas.

Além disso, é importante considerar que o planeta Terra, segundo o entendimento espírita, passa por um processo de transição moral. Nesse contexto, diferentes grupos de Espíritos coexistem: alguns mais adiantados moralmente, outros ainda profundamente ligados a tendências inferiores. A reencarnação, nesse cenário, não ocorre apenas com Espíritos em ascensão contínua, mas também com aqueles que necessitam de novas oportunidades de aprendizado, inclusive em ambientes mais desafiadores.

As novas gerações tendem a questionar mais, a buscar sentido pessoal nas crenças, a buscar outras formas de espiritualidade sem ritos ou compromissos, em vez de simplesmente aceitá-las por tradição

Isso ajuda a compreender por que vemos, simultaneamente, avanços significativos em áreas como direitos humanos, ciência e solidariedade, ao lado de manifestações de violência e intolerância. A humanidade não está retrocedendo de forma homogênea; transforma-se de maneira complexa.

No que diz respeito aos jovens, é necessário cautela ao generalizar, porque embora existam casos preocupantes, também há uma geração engajada em causas sociais, ambientais e humanitárias, muitas vezes com uma sensibilidade ética admirável. O que ocorre, talvez, é uma maior visibilidade dos comportamentos negativos, potencializada pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. A mídia raramente mostra casos de jovens em destaque por avanços na ciência, ou em casos humanitários.

Quanto às dificuldades enfrentadas dentro das famílias — inclusive em lares profundamente religiosos — é preciso reconhecer que a educação moral nunca foi tarefa simples. Grande parte de nós já vimos ou ouvimos falar de filhos de pastores, diáconos e ministros católicos, ou de palestrantes espíritas, que não se engajam em religiosidade como seus genitores, nem sequer os acompanham uma vez ao mês na instituição.

O fato de os pais serem comprometidos com valores espirituais não garante, automaticamente, que os filhos seguirão o mesmo caminho. Cada Espírito possui sua individualidade, seu histórico e suas próprias necessidades evolutivas.

A ideia de que “não se consegue mais doutrinar os filhos” pode refletir uma mudança de paradigma. As novas gerações tendem a questionar mais, a buscar sentido pessoal nas crenças, a buscar outras formas de espiritualidade sem ritos ou compromissos, em vez de simplesmente aceitá-las por tradição. Isso não é, necessariamente, um sinal de decadência, mas de transformação na forma de relacionar-se com a espiritualidade.

Por fim, é importante abordar com cuidado a noção de que haveria uma “falha da espiritualidade” na condução da humanidade. Dentro da perspectiva espírita, a espiritualidade superior não impõe caminhos, mas orienta e inspira, respeitando o livre-arbítrio de cada indivíduo. A evolução não é um processo imposto de fora para dentro, mas construído pelo próprio Espírito, através de suas escolhas.

Se há desarmonia no mundo, ela não decorre da ausência de orientação espiritual, mas da resistência humana em seguir princípios elevados. A espiritualidade auxilia, ampara e esclarece, mas não substitui a responsabilidade individual e coletiva.

Assim, em vez de enxergar o momento atual como um fracasso do progresso moral, talvez seja mais adequado compreendê-lo como uma fase de intensos desafios, necessários para consolidar mudanças mais profundas.

A humanidade não está parada, tampouco em retrocesso absoluto. Movimenta-se e enfrenta suas próprias sombras para, pouco a pouco, aprender a superá-las. E, nesse processo, cada um de nós é chamado não apenas a observar, mas a agir, começando pela própria transformação íntima, que sempre foi, e continua sendo, a base de qualquer verdadeira evolução.

 

O autor é escritor e articulista espírita.

outubro | 2026

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O Clarim – outubro/2026

Em crise, a humanidade retrocede ou transforma-se?

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