Março | 2025

O valor do elogio

Marildo Campos Brito

36odliram@gmail.com

Há um equivocado conceito de que elogiar alguém ou algo que tenha feito irá inflar o ego da pessoa, tornando-a vaidosa e presunçosa

 

Qual foi a última vez que você recebeu ou fez um elogio? E como você se sente ao receber algum?

Perguntas como estas têm sido a causa de muitas polêmicas e divergências entre algumas classes e grupos sociais, justamente porque herdamos e conservamos, dentro de nossa cultura ocidental, o péssimo hábito e equivocado conceito de que elogiar alguém ou algo que tenha feito irá inflar o ego da pessoa, tornando-a vaidosa e presunçosa, a ponto de surgirem expressões do tipo: “Pare de ficar dando moral ao fulano, ele se acha”; ou “você vai acabar estragando o seu filho com elogios”.

Em alguns casos, temos visto pais que ao invés de ficarem orgulhosos por seus filhos, congratulando-os por uma boa ação praticada, um bom comportamento, ou tirando boas notas na escola, ficam impassíveis aos seus esforços, aplicando-lhes reiteradas reprimendas: “Não fez mais do que a sua obrigação”. E quando passam a utilizar palavras duras que ferem e depreciam: “Você é um burro; fraco; não aprende nada; faz tudo errado”, a autoestima deles diminui, gerando em seu frágil psiquismo infantil um complexo de inferioridade e incompetência.

No entanto, nossa maior preocupação não deveria ser tanto o fato de elogiar o adulto ou uma criança, mas como tudo isso será encarado e absorvido. Como dita o bom senso, que medida deveríamos utilizar para elogiar ou censurar, sem proporcionar a alguém más consequências à sua personalidade?

Há pessoas que ficam envergonhadas quando exaltadas por suas virtudes, talentos e habilidades, sem saber como lidar com tamanha e embaraçosa situação, torcendo que o tempo passe logo para livrar-se do constrangimento. Sobre isso, o renomado escritor e expositor espírita José Raul Teixeira contou-nos certa vez que, quando era muito jovem ainda, no início de suas pregações doutrinárias, dizia ficar muito sem jeito ao receber os aplausos do seu público ao final de cada palestra, sem saber ao certo como reagir, se baixando a cabeça, sorrindo, agradecendo, de costas ou sentado. Até que seu benfeitor espiritual Camilo disse-lhe assim: “Raul, meu filho, existe uma forma muito simples e tranquila para que você seja feliz. Quando as pessoas o aplaudirem, dirija esses aplausos a Jesus, porque o trabalho pertence a ele. Agora, quando você sofrer alguma crítica ou correção do seu público, aprenda que Cristo nunca erra, o problema é com você”. Daí por diante, Raul Teixeira aprendeu a ficar em paz consigo, tanto para as coisas positivas como negativas.

O elogio quando verdadeiro e espontâneo, sem nada esperar em troca, estimula-nos a repetir com alegria os mesmos comportamentos e tarefas

Reconhecer e elogiar as pessoas por suas nobres e belas qualidades é motivá-las ao seu aprimoramento físico e moral. Mas, se porventura críticas surgirem a nosso respeito, aceitemo-las como preciosas e salutares advertências, procurando corrigir nossas falhas, entendendo que podem ser tanto boas como negativas; construtivas ou destrutivas.

Dizia-nos Santo Agostinho: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem”, muito próprio dos bajuladores. O elogio quando verdadeiro e espontâneo, sem nada esperar em troca, estimula-nos a repetir com alegria os mesmos comportamentos e tarefas. Na relação interpessoal, ele auxilia e promove o ser humano a mais trabalho, por mais segurança e bem-estar. E quando não somos reconhecidos pelo que fazemos, acabamos às vezes desacreditados e desistindo de lutar por nossos sonhos e empreendimentos, julgando-nos incapazes de conquistá-los.

Seja no âmbito familiar, social ou profissional, procuremos elogiar sem reservas e demora aqueles que merecem nosso apreço e gratidão, recordando também que Jesus foi tomado igualmente de profunda admiração por um centurião romano, que pedia-lhe com grande humildade a cura de seu empregado de uma paralisia. E dizendo depois que iria à sua casa, o centurião respondeu ao Celeste amigo que ele não era digno de receber tão sublime presença. Jesus, ouvindo aquelas sinceras palavras, o exaltou dizendo: “Em verdade, vos digo; nunca encontrei em Israel alguém que tivesse tanta fé”.[1]

Portanto, o elogio é bom e faz bem, quando feito com ponderação e discernimento.

Vamos elogiar mais!

 

  1. Mateus, 8:5–10; Lucas, 7:1–9.

 

O autor é palestrante espírita de Bauru, SP.

março | 2025

MATÉRIA DE CAPA

O Clarim – março/2025

Elogiar as pessoas é motivá-las ao seu aprimoramento

Lista completa de matérias

 O Espiritismo é independente?

 Notícias de “Evolução em Dois Mundos”

 Garridice e inutilidade

 Procurar ou esperar pela felicidade?

 O encontro

 Cinquenta anos depois…

 O valor do elogio

 O verdadeiro sentido da vida é sermos bons em tudo

 Em torno da religião verdadeira

 Allan Kardec

 Deixai vir a mim as criancinhas

 O bom senso encarnado

 A consciência, o que é?