Setembro | 2026

Os tributos da culpa

Eder Andrade

andrade_eder@yahoo.com.br

“O pretérito fala em nós com gritos de credor exigente” (André Luiz)

 

Muitos buscam os consultórios de psicologia ou psiquiatria para entender determinados transtornos dos quais são portadores. Carregam conflitos que, muitas vezes, não fazem sentido algum na atual encarnação, mas refletem um desequilíbrio muito grande que o Espírito traz consigo e precisa ser tratado, tanto pela medicina da Terra quanto pela espiritual.

A grande maioria desses conflitos reflete um sentimento inexplicável e desconfortável de angústia, de solidão, de amargura — algo que poderia ter acontecido e deixado uma marca muito profunda em nossa essência, levando-nos a buscar algum tipo de tratamento médico, espiritual ou holístico, para melhor compreender o que estamos vivenciando, como um trauma.

Teríamos sofrido algum tipo de agressão física ou moral que deixou profundas marcas em nosso Espírito, favorecendo o surgimento de determinada comorbidade na atual existência física, a exigir de nossa parte o necessário processo de reparação e aprendizado.

É muito comum, nos consultórios terapêuticos, escutar do profissional que somos portadores de algum tipo de sentimento de culpa. Essa culpa refletiria algum tipo de desequilíbrio mental ou psíquico provocado por nós em algum momento da atual encarnação ou, talvez, em vidas passadas. Em outras palavras, algo aconteceu e não tivemos oportunidade de corrigir ou desculpar-nos em tempo com aqueles a quem ofendemos ou prejudicamos, desencadeando, em nosso inconsciente, o peso da responsabilidade por um ato cometido — principalmente quando sabíamos o que estávamos fazendo.

Desse acontecimento ficou um sentimento mal resolvido que precisa ser tratado. Como nem todas as pessoas acreditam em vidas passadas e consideram que os acontecimentos refletem unicamente a atual existência, não aceitam a possibilidade de doenças transgeracionais.

(...) armazenamos nos escaninhos do inconsciente lembranças que um dia virão à tona, cobrando-nos reparação

Pesquisadores espíritas, como Jorge Andréa, deixam claro que armazenamos nos escaninhos do inconsciente lembranças que um dia virão à tona, cobrando-nos reparação: “Muitas distonias orgânicas nascem em correntes mentais, sem que o indivíduo conheça o mecanismo do problema. (...) A maioria desses sintomas estará enquadrada naquilo que hoje denominamos de doença psicossomática. Isto porque, não havendo uma causa orgânica conhecida, a origem passa a ser psicogênica.”[1]

Quando não admitimos a possibilidade de um tratamento ou a busca por melhor compreensão do que se passa conosco, fatalmente saldaremos esse compromisso através da dor moral — uma verdadeira tributação em sofrimentos que teremos de pagar pelos erros cometidos no passado, perante nossa consciência.

Suely Caldas, em sua obra Transtornos Mentais, ao correlacionar os pensamentos do psicólogo existencialista Rollo May ao Espiritismo, afirma que o homem moderno se distanciou de si mesmo na medida em que renunciou ao autoconhecimento: “A Justiça Divina é perfeita, portanto equânime, conforme o próprio Mestre Jesus asseverou: ‘a cada um segundo as suas obras’. Nos códigos divinos não existem imperfeições, privilégios, castigos, perseguições ou vinganças — embora assim pense a maioria das criaturas, que atribuem a Deus, como punição impiedosa, as provações que enfrentam na vida terrena.”[2]

Dependendo da cultura familiar, uma pessoa pode passar muitos anos resistindo a um tratamento, pois nem todos acreditam que a reencarnação possa trazer à tona questões mal resolvidas de vidas passadas. O Espírito André Luiz, no livro Ação e Reação, nos mostra que ocorre justamente o contrário: “O pretérito fala em nós com gritos de credor exigente, amontoando sobre as nossas cabeças os frutos amargos da plantação que fizemos... Daí, os desajustes e enfermidades que nos assaltam a mente, desarticulando-nos os veículos de manifestação. Admitíamos que a transição do sepulcro fosse lavagem miraculosa, liberando-nos o Espírito, mas ressuscitamos no corpo sutil de agora com os males que alimentamos em nosso ser. (...) Ninguém avança para a frente sem pagar as dívidas que contraiu.”[3]

A oportunidade da reencarnação é uma bênção para todos nós. Ninguém reencarna para sofrer, porém, carregamos um passado que cobra ressarcimento, o que determinará o tipo de experiência reencarnatória apropriado à nossa evolução. Cada caso é diferente e deve ser analisado à parte. Existem situações que se assemelham, mas não são iguais.

Alguns se perguntam: se tivéssemos a revelação do passado distante, não seria mais fácil tratar a causa do desequilíbrio, em vez de simplesmente vivenciar uma dificuldade sem explicação aparente? Kardec, em pleno século XIX, já enfrentava questões semelhantes quando perguntou ao Espírito da Verdade: “Por que perde o Espírito encarnado a lembrança do seu passado? — Não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em Sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transição, saísse do escuro para o claro. Esquecido de seu passado, ele é mais senhor de si.”[4]

Fica o alerta: ainda não estamos preparados para receber revelações sobre o que vivemos em encarnações anteriores. Até porque, segundo os próprios Espíritos, somos, na existência atual, a melhor versão de nós mesmos.

Aprendemos com os erros e precisamos ser resilientes, buscando capacitação para promover nossa reforma íntima. O processo de aprendizagem é um movimento contínuo em nossa transformação.

De forma oportuna, Emmanuel orienta com suas sábias colocações: “Ouvir, sim, os preceitos da Espiritualidade Superior, mas agir segundo nos orientam, porque, se sabemos e não fazemos o que o bem nos ensina, melhor fora não saber, para não sermos tributados com taxas de maior sofrimento nas grades da culpa.”[5]

 

  1. ANDRÉA, Jorge; Psicologia Espírita. v. 1, Em Busca do Equilíbrio. Ed. Sociedade Lorenz.
  2. SCHUBERT, Suely Caldas; Transtornos Mentais. Minas Editora. Cap. 2, Definindo Transtornos Mentais.
  3. XAVIER, Francisco Cândido. Ação e Reação. Pelo Espírito André Luiz. FEB. Cap. 2, Comentários do Instrutor.
  4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. FEB. Parte II, Cap. VII, Da Volta do Espírito à Vida Corporal, p. 392. Esquecimento do Passado.
  5. XAVIER, Francisco Cândido. Palavras da Vida Eterna. FEB. Cap. 95, Aprendendo.

 

O autor é professor de história e sociologia, frequentador do Centro Espírita Consolador, no Rio de Janeiro, RJ.

setembro | 2026

MATÉRIA DE CAPA

O Clarim – setembro/2026

Carregamos um passado que nos cobra ressarcimento

Lista completa de matérias

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 Uma carta e o comentário de Kardec

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 Harmonia

 Os tributos da culpa

 Eu sou um ser imortal

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 A pedagogia do esquecimento

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 Perdão e redenção

 Simplicidade e moderação: segredos da longevidade

 Mar de pensamentos e preces

 Alguém cantando