Setembro | 2023

Perfecciômetro

Cláudio Viana Silveira

cvs1909@hotmail.com

Qual o nível de perfeição relativa a que um ser humano (encarnado na Terra) é suscetível?

 

Suponhamos ver um indivíduo caindo num fosso. Instintivamente, a Lei de Deus, escrita em nossa consciência, nos solicitará: salva-o! E em o fazendo, surpreendemo-nos vê-lo como um de nossos desafetos. Constrangimentos, agradecimentos e uma porta aberta a uma futura reconciliação; mesmo tendo dúvidas, as reações das partes seriam essas.

Supondo ser um desconhecido, agimos de mesma forma: agradecimentos, talvez abraços e uma nova amizade a instalar-se. Para surpresa nossa, o indivíduo que estava a cair é nosso amigo do peito de longa data. Abraços, beijos, selfies, churrascada, uma taça do melhor vinho...

Quanto às duas últimas suposições não temos a menor dúvida.

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“Amar aos inimigos, não é ter por eles uma afeição que não é natural, uma vez que o contato de um [desafeto] faz bater o coração de maneira inteiramente diversa que o de um amigo.”[1]

Amar aos inimigos é um combo de treinamentos que fazemos no sentido de cambiar todo o ressentimento que lhes temos, por sentimentos sublimados e empanados, incondicionalmente, a um esforço pela simpatia, benquerença; alegrar-nos com seus sucessos; simplificar apoios, retirando-os do fosso anonimamente e sem vangloria. É, enfim, atar nossa alma ao perdão, ou este vir a aninhar-se em nossos corações.

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“Digo-vos: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos tem ódio, e orai pelos que vos perseguem e caluniam. (...) Se vós não amais senão os que vos amam, que recompensas haveis de ter? Não fazem os publicanos também o mesmo? E se vós saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis nisso de especial? Não fazem assim os gentios? Sede vós logo perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito.”[2]

“Tomado ao pé da letra (sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito), faria supor a possibilidade de atingirmos a perfeição absoluta. (...) Devemos entender por essas palavras, a perfeição relativa e que mais aproxima a humanidade da Divindade. (...) O amor do próximo, estendido até o amor dos inimigos, não podendo aliar-se a nenhum defeito contrário à caridade, é sempre, por isso mesmo, o indício de uma superioridade moral maior ou menor.”[2]

A superioridade moral maior ou menor nos autoriza a ajustar-nos a um perfecciômetro, neologismo que criamos para, didaticamente, medir o percentual de perfeição relativa a que um humano (do Planeta Terra) é suscetível.

Precisamos relembrar, aqui, que compulsoriamente, ao sermos criados Espíritos simples e ignorantes (sem complexidades e incultos), e contemplados com uma escola rudimentar (um planeta primitivo), nossa perfeição beirava a zero por cento; portávamos, é lógico, instintos, quando, na inocência destes, nossas necessidades eram a sobrevivência, segurança, alimentação e reprodução. Começamos a subir nessa escala de valores na proporção de nosso esforço de cooperação ao próximo ao longo das inúmeras encarnações, haja vista a conquista de inteligência e o surgimento de faculdades.

Começamos a subir nessa escala de valores na proporção de nosso esforço de cooperação ao próximo ao longo das inúmeras encarnações (...)

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Convém não esquecer que, na condição de estacionários, muitas vezes desamamos até os que nos amam, circunstância que nos deixa emperrados na escala evolucional; enquanto a gratidão é perfumada, a ingratidão tem péssimo odor; e nossa escalada da perfeição estará prejudicada.

Logo após, temos a tese farisaica em que Jesus nos alerta que não há nenhuma virtude em amar somente os que nos amam; e saudar somente os que nos saúdam. Nosso perfecciômetro, neste caso, sobe? Sobe! Mas trata-se, aqui, de um arremedo de perfeição, ou formalismo de convivência e que não contempla aqueles que ainda não pertencem a nosso credo, raça, partido, castas, gostos, cores... aqueles que segundo o ser humano de bem (objeto de estudo deste artigo) ainda não entenderam que o ecumenismo não prevê distinção de raças nem de crenças; e que ainda lançam [maldições] aos que não pensam como eles.

Em nossas reflexões, concluiremos que a perfeição moral começa a ser mensurada, “de fato”, quando estendida até o amor aos inimigos. Se, em nossos treinamentos, preservarmos o desafeto que está a cair no fosso, ficará mais fácil preservar nossos afetos de cair no mesmo fosso. Entendamos fosso, aqui, tanto literal como figuradamente, pois entre o amor e o ódio há um abismo configurado por todos os homens de bem que estiveram, estão e estarão em missão nesta Terra e todos aqueles que ainda não desejaram ler, estudar e pôr em prática tal lição.

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Impossível a perfeição absoluta; ela pertence a Deus; os 100%! Mas que consolo é ter um Deus como referência e Jesus como guia e modelo, apresentando-nos esse Pai, com todos os atributos, e principalmente aquele que faz nascer o seu sol sobre bons e maus e chover sobre justos e injustos: o soberanamente Justo e Bom.

Ainda, utilizando-nos do homem de bem, conheçamo-nos, examinemo-nos e interroguemos nossa consciência diariamente: como anda nossa Regra de Ouro, o fazer aos outros tudo aquilo que queiramos nos façam?

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É imperativo que o amar aos inimigos, melhor dizendo, desafetos, seja o grande e estimulante exercício para praticarmos as operações mais fáceis da perfeição moral. A perfeição moral passa, necessariamente pelo amor aos inimigos. De nossa melhoria individual e coletiva (relativas, é claro), dependerá a promoção planetária. Não percamos, pois, de vista, nosso “perfecciômetro”!

 

  1. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. J. Herculano Pires. 98.ed. LAKE. Cap. XII, item 3.
  2. Ibidem. Cap. XVII, itens 1 e 2.

setembro | 2023

MATÉRIA DE CAPA

O Clarim – setembro/2023

Até que ponto da perfeição relativa podemos alcançar?

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