Perguntas para o amanhã
Carlos Abranches
gutoabr@gmail.com
Se a vida maior o chamasse agora, o que levaria de melhor, do que quando entrou nesta roupagem?
Quando era criança, pegava-me, quase sempre, deitado na cama de cima do beliche de meu quarto, a vislumbrar, por uma pequena janela, os formatos inusitados das nuvens da pequena cidade do interior onde morava. Eram inúmeras formas no céu de minha infância, capazes de animar o começo do dia da criança que fui.
À noite, o processo se repetia. Como não havia muitas luzes nas ruas, o negócio era olhar para cima, e vislumbrar o concerto de estrelas que as constelações nos presenteavam.
Em meio às brincadeiras com irmãos e vizinhos, em relação ao que víamos no alto, uma pergunta volta e meia me batia no fundo da alma: “Sou tão pequeno. Quando vou crescer? Quando vou poder me sentir adulto e ir mais a fundo na grandeza que deve morar nessa amplitude toda?”
A adolescência chegou, agora já em outra cidade, e me vi às voltas com os chamados próprios das relações pessoais. Era alguém aqui, exigindo-me mais paciência do que eu gostaria de precisar; mais além, era outra pessoa despertando-me sentimentos novos, nunca antes sentidos e vividos, a exigir-me coragem para as aproximações e confirmações de afetos; acolá, a família passando a demandar-me renúncias até então desconhecidas.
Enfim, um mundo que se renovava a cada dia, pegando de surpresa o rapaz em crescimento, e igualmente a indagar: “Quando chegará a hora de meu domínio sobre mim mesmo? Já está demorando o momento em que terei controle sobre meus impulsos, nesses dias intermináveis de ensaio e erro, de acertos e tropeços.”
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No prenúncio dos dias de maturidade, eis que a família e os filhos, cada um chegando a seu tempo, inauguraram novas impressões pessoais, sobre o que é viver e dar conta de tarefas pessoais e coletivas.
Apesar dessa viagem, que entrava em suas quase quatro décadas, voltavam a brotar em minha mente as mesmas indagações do ser inquieto de outrora, sempre ressignificando o contexto das inquirições, em busca das respostas essenciais, desde o começo dessa viagem existencial. “Afinal, quando viverei em mim, de forma plena, aquilo que levo aos outros, através de meus livros e palestras? Desde quando, o que fui enfim será o que pretendo me tornar, nessa viagem grandiosa sobre a linha da vida, em que o que almejo ser ainda me aguarda, lá na frente, em uma estação aonde ainda não cheguei?”
Agora, quando já adentrei um estágio de maior maturidade nesta existência, sinto aproximar-se o ponto final da experiência reencarnatória. Apesar desse sentimento, também apreendo a intuição de que sou muito jovem para retornar à grande vida, mas já maduro o bastante para ter aprendido alguma coisa desta jornada.
Mesmo assim, perguntas interessantes continuam batendo-me à porta das reflexões, levando-me a paragens ainda desconhecidas. “E aí, moço, o que já foi possível aprender, até este ponto do trajeto, que efetivamente o fez um ser humano mais maduro? Se a vida maior o chamasse agora, o que levaria de melhor, do que quando entrou nesta roupagem? Diante das perguntas que se fazia na infância e adolescência longínquas, está satisfeito com as respostas que já pôde obter até aqui?”
A criança que fui segue olhando para o firmamento, buscando formas e encantamentos cósmicos, só que agora, essa viagem vai impulsionada pelo desejo profundo de transcendência
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O que posso dizer, diante deste espaço de indagações, é que as dúvidas que sempre me habitaram ainda carecem de mais amplitude em suas conclusões. A criança que fui segue olhando para o firmamento, buscando formas e encantamentos cósmicos, só que agora, essa viagem vai impulsionada pelo desejo profundo de transcendência. O homem de agora, tocado pela necessidade de transformar-se para melhor, agradece ao menino adolescente ter alimentado tantas questões valiosas, que se diluíram na jornada das buscas ininterruptas, a fim de que, no ponto final desse traçado, pudesse intuir o que o aguarda — um infinito de possibilidades, que preenchem o vazio da viagem solitária, em favor do encontro com respostas integrais.
Neste momento, ainda estou a meio caminho da estação final. Falta um bocado de chão para trilhar, mas a caminhada até aqui já me treinou o suficiente para encher o coração de esperanças, certezas e percepções, capazes de me encantar os olhos e de me encorajar para não desistir jamais de meus propósitos.
O que dizer à vida? Talvez, um “muito obrigado” pela proteção constante e fiel, desde o começo de tudo, para que esta existência se transformasse em algo de útil para alguém ou para muitos.
Se você estiver em algumas dessas estações, aproveite para reelaborar suas questões primeiras, e faça de sua trajetória uma página viva de superação e de fé, na certeza de que Deus conta contigo para alcançar as respostas que espera, a fim de sentir-se preparado para subir novos degraus, na escada encantadora da melhoria pessoal.
O autor é jornalista, filósofo e psicanalista. Mineiro de Juiz de Fora, é residente em São José dos Campos, SP, escritor e divulgador da Doutrina Espírita, e autor de oito livros.
janeiro | 2026
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