Simão Pedro — pedra e pastor
Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante
walkirialucia.wlac@outlook.com
Quando amadurecemos espiritualmente, começamos por estender nossas mãos e aceitar os caminhos que necessitamos para evoluir
“E já era a terceira vez que Jesus se manifestava aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dentre os mortos. E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas. Tornou a dizer-lhe segunda vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas. Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas. Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras.”[1]
Simão Pedro é a representação clássica daqueles que desejamos subir e encontramos dificuldades nesta caminhada. Algumas vezes, negando Jesus; outras tantas, procurando nos redimir, quando nos arrependemos e agimos conforme o aprendizado trazido pelo Mestre.
Esta é uma das passagens emblemáticas ocorridas com Pedro. Já fazia algum tempo que Jesus havia desencarnado e Simão voltava à vida de antigamente. Jogava a rede ao mar, mas não conseguia pescar. Depois de algum tempo neste processo, ouve a voz amiga, que ele já conhecia de outros tempos, a dizer: “Lançai a rede para a banda da direita do barco, e achareis.”[2] Pedro obedece, quase maquinalmente, e para seu espanto a rede volta cheia de peixes. Percebe-se nu e busca vestir-se com uma túnica.
Mal podia conter a alegria em divisar Jesus, tanto que não espera o barco aportar e lança-se na água para ir ao seu encontro. Antes, ele era o pescador de almas a quem Jesus confiara a divulgação de sua mensagem. Fazia o papel de apóstolo que transmitia a mensagem e era ponte entre os mais necessitados e Jesus. Mas após a partida do Mestre, Simão Pedro não se sentia mais à vontade com o que fazia. Foram muitos erros cometidos. Estava nu, pois todos lhe conheciam os atos de outrora e ele se envergonhava do que havia feito.
Jesus lhe pede que asse os peixes para jantarem. Repetia-se a cena dos dias de alegria em convivência do Rabi. Mas no meio deste processo, Jesus pergunta se ele o ama. “Como o amava! Todo ele se dera à Boa Nova, desde que a sua voz o chamara a pescar almas no oceano dos homens. Que poderia dizer, naquele instante de excelso conúbio?”[2] Então Jesus pede: “Apascenta as minhas ovelhas.”[2] Pedro não mais vai “pescar” almas; agora é hora de “educar” e “liderar espiritualmente” o rebanho.
Esta pergunta é repetida uma segunda e uma terceira vez. A cada afirmativa positiva de Pedro, Jesus volta a pedir: “Apascenta as minhas ovelhas.” Neste momento, Pedro lembra-se da negativa realizada antes que o galo cantasse três vezes. Ela sabia o que havia feito. Rejeitara a convivência com o Mestre alegando ser outro que o acompanhava. Mas, agora, a proposta é ir além, não só trazer para o rebanho de Jesus as criaturas desvalidas, mas conduzir este rebanho rumo ao Mestre querido.
Pedro não mais vai “pescar” almas; agora é hora de “educar” e “liderar espiritualmente” o rebanho
O Benfeitor Amorável afirma que antes Pedro cingia-se, mas agora, mais velho, outros lhe cingirão. Quando somos imaturos espiritualmente, caminhamos debatendo-nos em nós mesmos e atrelamos as nossas necessidades ao passageiro, em detrimento do que é eterno em nossas vidas. Acreditamos que a vida, mesmo diante da mensagem bendita, deve ser vivida conforme o momento presente e que o convite de renovação moral é uma proposta a longuíssimo prazo, cujo fim, muitas vezes, não desejamos vislumbrar.
Mas quando amadurecemos espiritualmente, começamos por estender nossas mãos e aceitar os caminhos que necessitamos para evoluir. Nossas escolhas não se pautam mais no momento presente, mas no futuro que desejamos alcançar. Não é o prazer momentâneo que nos guia, é a certeza do porvir que nos faz escolher este ou aquele caminho. Passamos a substituir o eu quero pelo eu devo.
Pedro passa por um processo de lapidação moral, tornando-se a pedra sobre a qual Jesus edificaria a sua igreja. Através da sua firmeza e coragem teria a função de sustentar a nova comunidade cristã que se iniciava. Ao pastorear, ele traz lenitivo aos corações, promovendo serenidade e conduzindo-os com amor. A pedra representa também a solidez da mensagem; o pastor traz a brandura da condução amorosa, ensinando a resiliência e a persistência na obra evolutiva. Pedro cumpriu com maestria o pedido do Mestre. Conta-se que Pedro seria crucificado da mesma forma que foi Jesus, mas ele pediu que a cruz fosse colocada de cabeça para baixo, pois não se considerava digno de desencarnar da mesma maneira que o Mestre.
Quantas vezes estamos no trabalho evangélico de divulgação espírita ou em qualquer outro em que somos os transmissores da Boa Nova e cometemos erros crassos. Situações que não deveríamos repetir, pois já aprendemos, divulgamos e “pescamos” almas para o Senhor. Mas fazemos. Então, no imo do nosso ser, ouvimos: “Tu me amas?” E respondemos com muita firmeza: “Sim, eu o amo.” Recebendo o convite: “Então, apascenta as minhas ovelhas”, ficamos extasiados. Não é o próprio Jesus que vem nos convocar, sabemos disso, mas O Evangelho segundo o Espiritismo que nos convida. Em qualquer mensagem, encontramos implicitamente: “Apascenta as minhas ovelhas.” Este é o convite que ecoa em nossos corações. Que possamos seguir os passos de Pedro e trabalhar na edificação do bem.
- João, 21:14–18.
- FRANCO, Divaldo Pereira.
RODRIGUES, Amélia. Primícias do Reino. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. Salvador: Livraria Espírita Alvorada Editora, 1991. Cap. 19, Simão Pedro — Pedra e Pastor.
A autora participa do Centro Kardecista Os Essênios, de João Pessoa, e é membro do Departamento de Apoio à Família (DAF) da Federação Espírita Paraibana.
fevereiro | 2026
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