Tentam lançar entre nós a discórdia
Orson Peter Carrara
orsonpeter92@gmail.com
O fato de um Espírito estar desencarnado não implica que ele seja bom ou sábio
Os Espíritos tentam lançar entre nós a discórdia e muitas vezes são bem-sucedidos, em face da nossa invigilância. Aproveitam-se de nossas fragilidades e conseguem acesso ao nosso meio, destruindo inúmeros anseios, causando desânimo em várias iniciativas, afastando ou separando grupos inteiros. É realidade que ainda se faz presente no cotidiano humano, em todos os segmentos, inclusive familiares e mesmo nos religiosos.
A orientação existe, está escrita e disponível; todavia, não prestamos a devida atenção a ela, não nos damos conta dela ou simplesmente a esquecemos. Não se despreze também o desconhecimento desse alerta, que não é exclusivo para reuniões doutrinárias ou mediúnicas. Ele é válido para qualquer ocasião em que duas ou mais pessoas reunidas tenham como propósito um objetivo nobre.
Sim, precisa se nobre; do contrário, automaticamente são atraídas para a reunião companhias espirituais nada recomendáveis. Lembremos que os Espíritos — bons ou maus, instruídos ou não — estão por toda parte, em qualquer segmento da vida, e se misturam à vida humana, aproveitando-se dos distraídos e ajudando os que desejam o bem.
Um Espírito desencarnado não é, necessariamente, um ser imbuído de bondade ou sabedoria. Ninguém se transforma apenas por desencarnar e no plano espiritual há os mal-intencionados e perversos, desocupados em vários níveis de ignorância. E, claro, há os instruídos, bons e sábios, muito conscientes da responsabilidade de viver.
Ninguém se transforma apenas por desencarnar e no plano espiritual há os mal-intencionados e perversos, desocupados em vários níveis de ignorância
Mas a clareza de Kardec é sempre presente. A orientação que citamos está lá, disponível no capítulo XXVIII, Coletânea de preces espíritas, em O Evangelho segundo o Espiritismo. Como se sabe, nesse capítulo há modelos de preces, não para decorar, mas para servir de referências para a reflexão. Em Reuniões Espíritas (itens 4 a 7), há reflexão valiosíssima, normalmente esquecida. Recordamos que os exemplos são precedidos de um pequeno Prefácio (textos bem compactos que muito ensinam). No item 6, encontramos exatamente um modelo de prece para esse caso (em transcrição parcial e grifos meus):
- Prece. (Para o começo da reunião.) — Ao Senhor Deus onipotente suplicamos que envie, para nos assistirem, Espíritos bons; que afaste os que nos possam induzir em erro e nos conceda a luz necessária para distinguirmos da impostura a verdade. Afasta, igualmente, Senhor, os Espíritos malfazejos, encarnados e desencarnados, que tentem lançar entre nós a discórdia e desviar-nos da caridade e do amor ao próximo. Se procurarem alguns deles introduzir-se aqui, faze não achem acesso no coração de nenhum de nós. Bons Espíritos que vos dignais de vir instruir-nos, tornai-nos dóceis aos vossos conselhos; preservai-nos de toda ideia de egoísmo, orgulho, inveja e ciúme; inspirai-nos indulgência e benevolência para com os nossos semelhantes, presentes e ausentes, amigos ou inimigos; fazei, em suma, que, pelos sentimentos de que nos achemos animados, reconheçamos a vossa influência salutar. (...)
Trata-se de instrução preciosa, que normalmente é esquecida ou desvalorizada. Não é hora de reler esses textos, pensar sobre eles, comentá-los, refletir? Há muita sabedoria disponível, mas nem sempre damos a importância a que faz jus. A reflexão continua no item 7 com uma sugestão de prece para o fim da reunião.
E depois reclamamos das influências negativas que se acercam de nós... Mas nós mesmos permitimos que se aproximem e causem todo tipo de perturbação, individual e coletiva.
Discórdias e desentendimentos se multiplicam e podemos afastá-los de nossa convivência com a adoção de novos comportamentos e a predominância de sentimentos benévolos. Encarnados e desencarnados, dominados ainda pelo egoísmo, tentam — e, pior, às vezes, nós também tentamos — estabelecer divisões e discórdias que poderiam ser superadas pelas virtudes. Logo, devemos empreender esforços para conquistá-las.
É mais uma pérola de O Evangelho segundo o Espiritismo.
O autor é escritor, palestrante e divulgador espírita. Escreveu mais de 20 livros, entre eles "Wallace Leal — Uma brisa perene" (Ed. O Clarim). Reside em Matão, SP.
novembro | 2026
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