Vamos perguntar aos Espíritos!
Orson Peter Carrara
orsonpeter92@gmail.com
A prática pueril abre brechas para que Espíritos mal-informados, e muitas vezes hipócritas, se aproveitem de nossa provável ingenuidade
É muito comum ouvir esta afirmação como justificativa de dirigentes, coordenadores de reuniões mediúnicas e médiuns diante de situações inesperadas ou questionamentos, os quais os indagados não sabem ou não querem responder.
São situações comparáveis às desculpas comuns no cotidiano dos relacionamentos, em que o medo, o excesso de zelo, a incapacidade de ação, a terceirização de responsabilidades, ou outras preocupações e interesses são elementos que interferem na solução de alguma pendência.
Perguntar aos Espíritos é uma forma de escapar do “aperto” de alguns questionamentos, que vêm de várias circunstâncias: decepções, frustrações, dificuldades, discordâncias, incômodos, constrangimentos e até mesmo ignorância (no sentido de desconhecimento, de não saber).
Afinal, é mais fácil transferir para os Espíritos a responsabilidade daquilo que não sabemos como resolver ou responder, o que se transforma num “espiritismo à moda da casa ou do dirigente”, adaptado ao conceito daquele que se considera investido do poder de decisão sobre questões que os Espíritos deixam à nossa avaliação individual, justamente para nosso aprendizado e amadurecimento.
Um benfeitor espiritual legítimo nunca dá respostas prontas, deixando que experimentemos decisões, escolhas, acertos e equívocos. Eles respondem, sim, com agrado, questões que nos auxiliem ao progresso e nos façam melhores, mas não se submetem a um plantão de resoluções. Estas vêm da nossa reflexão.
É de suma importância que, antes de qualquer argumentação, leve-se em conta o estudo atento — e constante — ao conteúdo do capítulo XXVI, Perguntas que se podem dirigir aos Espíritos, de O Livro dos Médiuns, em sua Segunda Parte, especialmente o item 291, que traz questões sobre os interesses morais e materiais (q. 17 a 20); aqui está o cerne da presente abordagem. Principalmente, é claro, no aspecto moral, do qual se originam as dúvidas mais comuns.
Dirigir perguntas aos Espíritos não é algo banal. Há circunstâncias específicas, que devem ser analisadas seriamente e não como “muleta escapatória”. Afinal, fazer disso um hábito vicioso favorecerá que Espíritos fraudulentos — e que se aproveitam da própria invisibilidade para enganar e dominar — sejam os que respondem, normalmente jogando mais lenha na fogueira.
E, por outro lado, considere-se que os Espíritos não estão à nossa disposição, como se só ficassem única e simplesmente respondendo nossas dúvidas. Muitas questões cabem à nossa capacidade de sentir, raciocinar, refletir, aplicando as diretrizes doutrinárias já disponíveis na Codificação Espírita. Muitas decisões cabem a nós mesmos. Muitas escolhas cabem aos encarnados, que vamos aprender nesse desafio de analisar e decidir.
Tudo submeter à opinião dos Espíritos é, no mínimo, falta de bom senso e ausência de discernimento. É exatamente na análise ponderada das situações que amadurecemos para as escolhas mais corretas e coerentes
Tudo submeter à opinião dos Espíritos é, no mínimo, falta de bom senso e ausência de discernimento. É exatamente na análise ponderada das situações que amadurecemos para as escolhas mais corretas e coerentes. Transferir decisões com a justificativa de que “precisamos consultar os Espíritos” denota falta de conhecimento doutrinário — o que é grave para um dirigente ou um coordenador de grupos mediúnicos. Claro que a busca de uma orientação para dúvidas, com a prece, a vibração e os pedidos mentais, é recurso que não pode nem deve ser desprezado, mas se a prática torna-se corriqueira, algo está errado: ou falta conhecimento ou está criada a dependência.
Nos dois casos, fica-se exposto a influências dos chamados “falsos profetas da erraticidade”, tão bem apresentados em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XXI, especialmente no item 10. Ali, o Espírito Erasto classifica as comunicações como oriundas de Espíritos vaidosos e medíocres.
Portanto, cuidado com a dependência de Espíritos. O estudo doutrinário nos preserva de enganos e ilusões. Na verdade, nos protege. E fujamos do hábito de consultar os Espíritos. Antes, analisemos as diretrizes doutrinárias já disponíveis. Somos capazes de uma análise imparcial, lógica e coerente que nos permita responder aos questionamentos, partindo do nosso próprio raciocínio. O estudo doutrinário continuado nos capacita a isso.
Convenhamos, todavia, que não somos sábios. E todos somos aprendizes. Surgirão, sim, perguntas que nos desafiarão. Tenhamos, porém, a humildade de reconhecer nossa limitação e caso não sejamos capazes de discernir sobre determinadas questões, busquemos trocar ideias, seja com amigos próximos, seja com outros estudiosos confiáveis, ainda que distantes.
O importante é não ceder à cômoda resposta: preciso consultar os Espíritos. Se isso virar rotina, não entendemos ainda o Espiritismo.
Por fim, como garantir que as repostas que possamos obter provêm de Espíritos sábios e coerentes? Somente o estudo doutrinário nos dará condições de discernimento. Se, contudo, nos acostumarmos com a prática de forma pueril, abrimos brechas para que Espíritos mal-informados, e muitas vezes hipócritas, se aproveitem de nossa provável ingenuidade. Afinal, os bons Espíritos se afastam de quem não se esforça.
O autor é escritor, palestrante e divulgador espírita. Escreveu mais de 20 livros, entre eles "Wallace Leal — Uma brisa perene" (Ed. O Clarim). Reside em Matão, SP.
maio | 2026
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