
Vem para dentro
Eduardo Perez
perezedu09@gmail.com
As práticas exteriores nada contribuem com novidades que possam tocar nossa alma, nosso coração, numa mudança substancial
Vem para dentro, diz a mãe para a criança quando se afasta da hora de entrar e se perde nas fantasias da rua, nos delírios de fora.
As religiões do passado convidam para fora, embriagadas e dinamizadas por experiências extrovertidas, em que a libido, nossa energia de vida, energia psíquica, era orientada às práticas exteriores, que nada contribuíam com novidades que pudessem tocar nossa alma, nosso coração, numa mudança substancial.
Assistíamos a cultos, ordenações e sacramentos orientados pela extroversão em imagens que mantêm um sono profundo e letárgico. Moribundos, caminhávamos com a promessa de que a redenção e a felicidade estavam fora, na rua. Deus estava lá em cima, montado num trono áureo, punindo seus filhos.
Reuníamo-nos em ceias que nada contribuíam espiritualmente. Adorávamos imagens muito bem cuidadas e muito bem adornadas em altares muito bem decorados e ouvíamos sermões que nos afetavam o epitélio, mas os esquecíamos ao deixar o espaço sagrado. Nada que alterasse atitudes.
Em 1857, Allan Kardec, qual mãe atenta, chama a humanidade criança da Terra para dentro, ensinando que pouco valem as práticas exteriores, pois que nada contribuem para uma mudança pontual, verdadeira e significativa, e entravam a construção da felicidade, porque as existências se tornam estereotipadas e então sofríveis. Na questão 919 de O Livro dos Espíritos: “Qual o meio prático e eficaz para se melhorar nesta vida e resistir ao arrastamento do mal? — Um sábio da Antiguidade vos disse: Conhece-te a ti mesmo”, e como conhecer-se estando fora de si?
Ora, se está fora de si está em estado de perturbação, sem controle de si mesmo. Quando afirmamos que o sujeito está fora de si, queremos dizer que ele perdeu o controle e envolveu-se em distúrbio, e então vivencia a mesmice de Sísifo e não consegue “melhorar-se nesta vida e resistir ao arrastamento do mal”, porque se comporta repetitivo, estereotipado.
Mais tarde, Jung colabora com as atitudes psicológicas de extroversão e introversão, afirmando que tudo deve fazer sentido ao coração, tudo deve tocar a alma pois “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta” ou “Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamar isso de destino”. Assim, iniciamos a heroica jornada para si mesmo, a ciência de si mesmo, a consciência de si como Espírito encarnado para aprender, viver, prosperar na coragem de fazer diferente, num movimento introvertido de ser, de ouvir a alma e permitir mudança pontual em si mesmo, transformando a vida espiritual.

Assim, iniciamos a heroica jornada para si mesmo, a ciência de si mesmo, a consciência de si como Espírito encarnado para aprender, viver, prosperar na coragem de fazer diferente (...)
André Luiz afirma que o Espiritismo permite o movimento de ampliação da consciência, pois que avançamos dos elementais para o mental. Não são mais os elementos exteriores (vela, imagens, rituais) que podem colaborar para a transição espiritual, mas, sim, uma mudança de dentro, mental. Não mais elementos de fora que patrocinam fenômenos, mas, sim, a força interior, a mente.
Começamos a entender que as cenas estereotipadas da Paixão de Cristo, insistentemente repetidas durante a Páscoa, sem sentido nem entendimento, são movimentos de extroversão; as ceias natalinas, extroversão; sacramentos como batismos e casamentos, extroversão; discutir a cor dos olhos de Jesus, extroversão, nada acrescenta; discutir picuinhas literárias e gramática, extroversão. Mas entender o fundo da mensagem e adotar prática, toca o coração. É a reforma interior, tão preconizada pelos Espíritos da Codificação.
Iludidos de que a felicidade está no veículo formidável, na casa ou mansão maravilhosa, numa vida sem percalços, na fantasia das próteses e cirurgias plásticas, na disformia corporal, vão repetindo procedimentos e sempre e sempre mais até morrerem nas mesas cirúrgicas, inclusive às vezes desencarnando. Buscam como vivos mortos — como aduz Emmanuel — o que não lhes pertence, caindo em abismos de dor porque se tornam cegos guiados por cegos, conforme afirma Jesus.
Imantados pelo prazer imediato, e então infantil, narcísico, arrastam a vida em práticas exteriores, dorminhocos, caminham para as ruínas ancestrais de sofrimento.
Frustrados pelo vazio de fora, o vazio existencial, construímos tumores e tantas outras falências físicas até entender que somos arquitetos de nossa existência, agradecendo então à gratificante oportunidade de colher o que plantou.
Ir para fora adoece o corpo, caminhar para dentro cura a alma. Jesus é o grande médico das almas que convida a viver uma “vida em abundância”, um movimento introvertido, no qual nos voltamos para dentro, acordando das ilusões e dos delírios de fora.
Sonambúlicos pelas práticas exteriores, podemos agora ser sonambúlicos pelas práticas interiores, tocando o coração e a alma na mudança de postura, na superação das tendências acumuladas por tantas vivências e assim transformando-nos pelo fundo do entendimento; não mais discursos e repetições nada úteis. Não podemos mais ser médiuns do que está fora, mas, sim, médiuns do que muda e melhora a alma.
É necessário despertar, acordar desse sonho sombrio de viver sem sentido e entendendo o sentido de tudo, ser tocado no coração pelas lições do Mestre de sempre.
Criança, vem para dentro!
O autor é psicólogo, com especialização em psicologia analítica e pós-graduação em psicologia transpessoal.
abril | 2025
MATÉRIA DE CAPA
O Clarim – abril/2025
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