Julho | 2026

A nova geração citada por Kardec é a Geração Z?

André Luiz Rabello

andrerab@gmail.com

As promessas de regeneração e os desafios do presente

 

A humanidade atravessa períodos de transição que se manifestam, de maneira muito clara, nas características das gerações que se sucedem. Cada grupo etário traz consigo tendências morais, intelectuais e comportamentais que refletem não apenas influências socioculturais, mas sobretudo o estágio evolutivo dos Espíritos que reencarnam em determinada época. À luz do Espiritismo, nenhuma geração é fruto do acaso. Ela expressa, antes de tudo, um movimento profundo da Lei de Progresso.

Nos últimos anos, muito se tem falado da chamada Geração Z, composta, em linhas gerais, pelos nascidos entre meados da década de 1990 e o início da década de 2010. São os jovens plenamente inseridos no mundo digital, marcados pela conectividade permanente, pela rapidez das informações e por novas formas de interação social. Entretanto, sob o olhar espírita, a análise dessa geração não pode restringir-se a fatores sociológicos. É necessário confrontar suas tendências com os parâmetros espirituais delineados por Allan Kardec, especialmente em A Gênese, quando trata da “nova geração” destinada a promover a regeneração da Terra.

Kardec afirma que a transformação moral do planeta não se dará por cataclismos físicos, mas pela substituição gradual dos Espíritos que aqui habitam. Os mais endurecidos no mal cedem lugar àqueles mais inclinados ao bem. Essa nova geração, segundo ele, caracteriza-se pela predominância de sentimentos de fraternidade, justiça e solidariedade. Não se trata de perfeição, mas de uma inclinação moral mais elevada.

Diante disso, cabe perguntar: a Geração Z corresponde, de fato, a essa nova geração anunciada pelo Codificador?

É nesse ponto que a Geração Z enfrenta seu maior desafio. Embora conectada globalmente, ela experimenta índices elevados de solidão, ansiedade e depressão. A hiperconectividade não tem sido sinônimo de comunhão real

É inegável que muitos jovens atuais revelam sensibilidade social acentuada. Observa-se maior abertura ao diálogo sobre direitos humanos, inclusão, diversidade e preservação ambiental. A preocupação com causas coletivas é, sem dúvida, um traço que pode ser interpretado como avanço moral. Em diversos contextos, nota-se menor tolerância a preconceitos outrora naturalizados. Tal postura pode indicar Espíritos que já não se ajustam às velhas estruturas de dominação e exclusão.

Contudo, a análise não pode ser ingênua. Ao lado dessas virtudes, evidenciam-se tendências preocupantes. A cultura da superficialidade, alimentada pela lógica das redes sociais, estimula a busca incessante por aprovação e visibilidade. A identidade, muitas vezes, constrói-se mais pela imagem projetada do que pela essência cultivada. A impaciência, a dificuldade de lidar com frustrações e o imediatismo são traços frequentemente associados a essa geração.

Do ponto de vista espírita, tais características revelam Espíritos ainda fortemente vinculados ao personalismo e ao orgulho. A necessidade constante de reconhecimento externo denuncia carência de autoconhecimento e de interiorização. A nova geração descrita em A Gênese não se define por habilidades tecnológicas ou por discursos progressistas, mas por uma efetiva transformação moral. Kardec é claro ao afirmar que esses Espíritos trarão, como marca distintiva, a predominância do bem sobre o mal em suas inclinações.

Outro aspecto digno de reflexão é a relação da Geração Z com a autoridade e a tradição. Se, por um lado, o questionamento crítico pode ser saudável e compatível com o espírito de progresso, por outro, observa-se, em certos casos, rejeição sistemática de valores consolidados, sem a devida análise ponderada. A crítica torna-se, por vezes, reativa e emocional, não construtiva. A nova geração, segundo Kardec, distinguir-se-á pela racionalidade aliada à moralidade. Não será uma geração de rebeldia vazia, mas de renovação consciente.

A espiritualidade não se mede pela adesão a modismos ideológicos, mas pela vivência efetiva do amor ao próximo. É nesse ponto que a Geração Z enfrenta seu maior desafio. Embora conectada globalmente, ela experimenta índices elevados de solidão, ansiedade e depressão. A hiperconectividade não tem sido sinônimo de comunhão real. Do ponto de vista espírita, tal fenômeno pode ser interpretado como consequência do afastamento das leis divinas inscritas na consciência.

A nova geração de que fala Kardec terá maior intuição do bem e mais facilidade em compreender as leis morais. Isso não significa ausência de provas ou conflitos, mas uma disposição interior mais harmonizada com o Evangelho. Quando analisamos comportamentos marcados por intolerância nas redes, cancelamentos impiedosos e julgamentos sumários, percebemos que ainda há forte presença de paixões inferiores.

Não se trata de condenar a Geração Z, mas de situá-la no contexto evolutivo. Cada Espírito reencarna trazendo consigo conquistas e imperfeições. É possível que muitos dos que hoje compõem essa geração sejam, de fato, Espíritos comprometidos com a transição planetária, mas ainda imaturos em determinados aspectos. A regeneração não ocorre de forma homogênea; ela é gradual e complexa.

Há, entretanto, sinais promissores. A valorização da saúde mental, por exemplo, indica maior reconhecimento das dimensões subjetivas da existência. Ainda que muitas abordagens se limitem ao campo psicológico, abre-se espaço para reflexões mais profundas sobre sentido de vida, propósito e equilíbrio interior. O Espiritismo pode e deve dialogar com essas inquietações, oferecendo visão integral do ser humano, como Espírito imortal em processo de aperfeiçoamento.

Outro traço relevante é a busca por autenticidade. Muitos jovens rejeitam padrões artificiais e aspiram a coerência entre discurso e prática. Essa inclinação pode ser canalizada para o esforço de reforma íntima, princípio fundamental da Doutrina Espírita. Contudo, quando a autenticidade se confunde com a exaltação irrestrita dos próprios desejos, perde-se o referencial ético. A liberdade, ensinada por Kardec, está sempre vinculada à responsabilidade.

É necessário recordar que, em A Gênese, Kardec não idealiza a nova geração como composta exclusivamente por Espíritos superiores. Ele afirma que haverá mistura, mas com predominância dos melhores. Portanto, não se deve esperar perfeição coletiva, mas tendência majoritária ao bem. Se a Geração Z ainda apresenta fortes traços de materialismo, hedonismo e individualismo, isso indica que o processo de transição permanece em curso.

A crítica espírita, contudo, deve ser construtiva. Não cabe adotar postura meramente moralista, desconsiderando os condicionamentos culturais e tecnológicos que moldam comportamentos. A educação espírita, inspirada no Evangelho, precisa oferecer referenciais sólidos sem cair em condenações estéreis. O jovem da Geração Z necessita de diálogo, não de rótulos.

Sob o prisma reencarnatório, é possível que muitos desses Espíritos tenham participado de movimentos sociais e científicos em existências passadas, retornando agora com maior capacidade intelectual. A facilidade com a tecnologia pode refletir experiências pretéritas de vanguarda. Entretanto, a inteligência, desacompanhada de moralidade, não garante progresso verdadeiro. Kardec enfatiza que o avanço intelectual pode preceder o moral, mas este é o que define a verdadeira superioridade.

Se desejamos identificar sinais autênticos da nova geração regeneradora, devemos observar atitudes concretas: capacidade de perdoar, disposição para servir, honestidade nas relações, humildade diante do erro. Esses são os critérios estabelecidos pelo Espiritismo. A mera adesão a discursos de transformação social não substitui a vivência do amor.

A Geração Z possui potencial extraordinário. Cresceu em um mundo globalizado, com acesso amplo à informação e maior consciência das interdependências planetárias. Tal contexto favorece a compreensão da fraternidade universal ensinada pelos Espíritos. Todavia, o risco de dispersão e superficialidade é igualmente grande. O excesso de estímulos dificulta a interiorização, elemento essencial ao progresso espiritual.

É imperioso que as instituições espíritas reflitam sobre sua responsabilidade diante dessa geração. Métodos excessivamente formais e linguagem distante da realidade juvenil tendem a afastar aqueles que poderiam contribuir decisivamente para a renovação do movimento espírita. A fidelidade doutrinária não exige rigidez pedagógica, mas clareza de princípios aliada à sensibilidade cultural.

Ao confrontar a Geração Z com os parâmetros de A Gênese, percebemos que ela ainda não representa plenamente a geração regeneradora descrita por Kardec. Contudo, apresenta indícios de transição. Há sementes de fraternidade e justiça que precisam ser cultivadas. Há também sombras de orgulho e vaidade que necessitam ser trabalhadas pela experiência e pelo esclarecimento.

A visão espírita convida à esperança responsável. Nenhuma geração está perdida, assim como nenhuma está pronta. Todos somos Espíritos em aprendizado. A regeneração da Terra depende da transformação individual, multiplicada coletivamente. Se a Geração Z aprender a utilizar sua conectividade para promover o bem, a empatia e a solidariedade reais, poderá aproximar-se do ideal traçado pelo Codificador.

Em última análise, a verdadeira nova geração não é definida por data de nascimento, mas por estado de consciência. Espíritos regenerados podem reencarnar em qualquer época; o que os distingue é a predominância do amor sobre o egoísmo. Que a juventude atual, com sua energia e criatividade, aceite o convite da espiritualidade para aprofundar suas conquistas morais.

Somente assim poderemos afirmar, com serenidade, que estamos diante da geração anunciada por Kardec: não a geração da aparência, mas a geração do coração renovado; não a geração do ruído digital, mas a geração da consciência desperta; não a geração da crítica estéril, mas a geração da caridade operante. A Terra de regeneração começará quando cada jovem — e cada adulto — assumir, em si mesmo, o compromisso inadiável de ser melhor hoje do que foi ontem.

 

O autor é membro da Fraternidade Espírita Amor e Paz, no Rio de Janeiro.

julho | 2026

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