Novembro | 2026

Em que perseveramos?

Adauto Santos

adauto.santos@gmail.com

O Céu não fechou suas portas; nós, muitas vezes, é que fechamos as janelas de nossa alma

 

Quais são os nossos objetivos na vida? Que valores damos para as questões materiais e espirituais? É importante acreditar que as dádivas nunca cessam: perseverança, oportunidade e ação no caminho do Cristo. A questão é que nem sempre procuramos os valores efetivamente cristãos e nos deixamos contaminar pelas questões meramente materiais.

 

A fonte que nunca seca: a constância da misericórdia divina

O cap. 39 do livro Vinha de Luz, intitulado “Em que perseveras?”, traz um questionamento à nossa conduta espiritual: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão e no partir do pão e nas orações” (Atos, 2:42). A reflexão inicia observando um equívoco comum: a crença de que os tempos de grande espiritualidade e revelação divina pertencem ao passado.

Quantos de nós, diante das notícias que pintam um mundo em crise moral e social, não suspiramos nostálgicos, imaginando um “paraíso perdido” dos tempos apostólicos? Lembramo-nos da coragem dos primeiros cristãos diante dos leões, da fé inabalável dos mártires, dos sinais e curas que marcaram aquela era. Parece fácil concluir que Deus, outrora tão presente, teria retirado Suas mãos do mundo.

No entanto, o cap. 39 nos corrige com clareza: “A misericórdia do Pai não mudou. A Providência Divina é invariável em todos os tempos.” A questão, portanto, não está no doador, mas no receptor. As dádivas divinas — que podemos entender como oportunidades de crescimento, inspiração para o bem, força para superar provas, sinais de amor e direção — continuam a fluir como um rio incessante.

Todas as experiências da vida são oportunidades de aprendizado, de nos tornarmos melhores, de nos aproximarmos de Deus. O problema é que trocamos o coração aberto e humilde por um “recipiente” cheio de orgulho, materialismo e indiferença. Vemos dificuldades nas oportunidades e obstáculos nas provas que nos levam ao crescimento.

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, fundamenta essa ideia nas questões 132 e 133: “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição” e “pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da Criação” (q. 132). E mais: “Deus, que é justo, não podia fazer felizes a uns, sem fadigas e trabalhos, conseguintemente sem mérito” (q. 133). Ou seja, a própria encarnação, com todos os seus desafios, é em si uma dádiva, uma oportunidade única de progresso que Deus concede incessantemente. A fonte não estancou; nós é que, muitas vezes, nos recusamos a beber dela.

As oportunidades para praticar esse amor estão em cada esquina de nossa sociedade brasileira: no olhar para o morador de rua, na atitude ética no trabalho, no voto consciente, na educação dada aos filhos, no tratamento respeitoso a todos

 

Perseverar em quê? O Evangelho versus as ilusões do mundo

Voltando a Vinha de Luz, o cap. 39 faz um diagnóstico contundente sobre a “atitude dos cristãos, na atualidade”: “Raríssimos perseveram na doutrina dos apóstolos, na comunhão com o Evangelho, no espírito de fraternidade, nos serviços da fé viva. A maioria prefere os chamados ‘pontos de vista’, comunga com o personalismo destruidor, fortalece a raiz do egoísmo e raciocina sem iluminação espiritual.”

Em que temos perseverado? No estudo sério e na aplicação dos ensinamentos de Jesus? Ou apenas na defesa de nossas opiniões pessoais, nossas conveniências e nosso conforto? Na “comunhão” — no sentido de verdadeira solidariedade, de partilha, de sentir a dor do outro como nossa? Ou no isolamento egoísta, na indiferença aos que sofrem? No “partir do pão” — símbolo da ação caridosa e da justiça social? Ou na acumulação e no consumo desenfreado? Nas “orações” — no diálogo íntimo com Deus, na busca de inspiração superior? Ou apenas em murmúrios, queixas e futilidades?

Transportando essa reflexão para o Brasil de hoje, a pergunta ganha contornos urgentes. Vivemos em uma sociedade de contrastes agudos: uma das maiores economias do mundo convivendo com níveis obscenos de desigualdade social. Um povo caloroso e religioso, mas que muitas vezes vê sua fé desconectada da transformação social efetiva. Perseveramos em quê? Na cultura do “jeitinho” que corrói a ética? No individualismo que nos faz trancar portas e corações? No discurso religioso vazio que não se traduz em ação? Ou na construção paciente de uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais educada?

As ilusões do mundo nos seduzem diariamente: de que a felicidade está no ter, e não no ser; de que o sucesso justifica qualquer meio; de que os “problemas sociais” são responsabilidade exclusiva do Estado, e não de cada um. O Evangelho Segundo o Espiritismo, em contrapartida, nos convida a uma revolução íntima e social. Em seu Cap. XVII, item 3 (“Sede Perfeitos”), encontramos a explicação e entendemos que a perfeição, para a qual tendem todos os homens encarnados ou desencarnados, depende do esforço individual.

É nessa perfeição que eles encontrarão a eterna felicidade. E como alcançá-la? Pelas leis que Jesus resumiu no amor a Deus e ao próximo. As oportunidades para praticar esse amor estão em cada esquina de nossa sociedade brasileira: no olhar para o morador de rua, na atitude ética no trabalho, no voto consciente, na educação dada aos filhos, no tratamento respeitoso a todos.

 

Como fortalecer a compreensão e a prática do Evangelho no Brasil?

Não basta refletir; é necessário agir. A perseverança é ativa. Como, então, podemos sair do estado de “capacidade entorpecida” e nos tornar receptáculos aptos a receber as dádivas divinas, transformando-nos e transformando nosso meio? Seguem algumas propostas concretas, acessíveis a todos os verdadeiros cristãos:

  1. Educação do coração e da mente (perseverar na Doutrina):

Estudo semanal em grupo. Criar ou participar de pequenos grupos de estudo do Evangelho, presencial ou virtualmente. Como agir diante da violência? Como enfrentar o desemprego com esperança? Como educar os filhos num mundo tão materialista?

Uso das mídias com propósito. Consumir e compartilhar conteúdos que edifiquem — palestras, músicas, textos que tragam mensagens de fraternidade e esperança, em contraposição ao fluxo constante de notícias negativas, fúteis ou falsas.

  1. Comunhão e partir do pão (perseverar na fraternidade e na ação social):

Caridade inteligente e promoção social. Ir além da esmola ocasional. A verdadeira caridade, como ensina o Espiritismo, busca solucionar causas. Podemos nos envolver ou apoiar projetos que: ensinem a pescar, como oficinas profissionalizantes para jovens em situação de vulnerabilidade, reforço escolar, educação financeira para famílias; fortaleçam laços, como grupos de apoio a mães solo, visitas regulares a asilos e orfanatos para levar não apenas donativos, mas amizade e atenção; promovam justiça, com apoio jurídico comunitário e conscientização sobre direitos básicos (saúde, educação, moradia).

Voluntariado estruturado. Doar algumas horas por semana de forma regular a uma instituição séria. O “partir do pão” é a partilha do nosso tempo, nosso talento e nossos recursos.

  1. Fortalecimento da vida interior (perseverar nas orações):

Momento diário de silêncio. Criar o hábito de, mesmo que por cinco minutos ao acordar ou antes de dormir, silenciar a mente, agradecer pelas bênçãos do dia e pedir forças para ser instrumento do bem. Isso não é ritualismo; é alinhamento.

Oração pela sociedade. Incluir em nossas preces não apenas pedidos pessoais, mas vibrar pela paz, pela sabedoria dos governantes, pela cura dos doentes e pela esperança dos desempregados. A oração é uma força real que pode influenciar os ambientes.

Meditação e autoconhecimento. Práticas que ajudem a controlar impulsos negativos como a raiva, a inveja e o julgamento, cultivando a paciência e a compreensão. Conhecer-se é o primeiro passo para reformar-se.

  1. Exemplo e diálogo (perseverar no testemunho):

Viver o que se prega. A coerência entre o discurso e a ação é a ferramenta de conversão mais poderosa. Ser honesto quando ninguém vê, gentil no trânsito, paciente com os erros alheios.

Diálogo respeitoso. Em um país polarizado, buscar a paz nos debates. Ouvir mais do que falar, entender antes de contra-argumentar, difundir a cultura do respeito mesmo na divergência.

Família como centro. Reforçar, no seio familiar, os valores do diálogo, do perdão, da responsabilidade compartilhada e do afeto. A sociedade transformada começa na família harmoniosa.

 

A escolha da imutabilidade

O cap. 39 de Vinha de Luz nos conclama a uma decisão: “Antes de aplaudir os mais afoitos, procuremos saber se estamos com a volubilidade dos homens ou com a imutabilidade do Cristo.” A volubilidade dos homens é a que segue modas, interesses passageiros e o canto das sereias do materialismo. É o que nos faz abandonar a luta pelo bem quando ela se torna difícil. A imutabilidade do Cristo é a firmeza nos princípios do amor, da justiça e da fraternidade, independentemente das circunstâncias.

As dádivas divinas, as oportunidades de evoluir e de servir nunca cessaram. Estão presentes no sorriso que podemos dar, no prato de comida que podemos compartilhar, na palavra de consolo que podemos oferecer, na luta por um país mais digno que podemos empreender. O Céu não fechou suas portas; nós, muitas vezes, é que fechamos as janelas de nossa alma.

Que possamos, como os primeiros cristãos, perseverar. No estudo que ilumina, na comunhão que une, na ação que liberta e na prece que sustenta. Assim, com o coração aberto e as mãos à obra, nos tornaremos não apenas receptáculos das dádivas de Deus, mas canais ativos delas para um Brasil e um mundo que tanto precisam de luz. A transformação social começa com a reforma íntima de cada um de nós. E essa é a mais urgente e bela obra que podemos perseverar.

 

O autor é colaborador do movimento espírita e palestrante no Distrito Federal.

novembro | 2026

MATÉRIA DE CAPA

RIE – novembro/2026

As dádivas nunca cessam. E nós, o que fazemos delas?

Lista completa de matérias

 A ideia do nada

 Em que perseveramos? – Carta ao Leitor

 Pense isso ou nisso?

 O físico reflete o que o Espírito vivencia – Entrevista com Ísis Miranda Vidal

 O luto e as preces pelo mortos

 O despertar da mônada e o diário do progresso

 A sutileza espiritual da caridade

 Entendimento mal alinhavado

 Em que perseveramos?

 Guerra, Providência e progresso

 A Criação Divina segundo a Codificação Kardequiana, uma abordagem científica (Parte II)

 Entendendo a mediunidade

 Pinga-Fogo com Kardec

 A verdade, a pós-verdade e a mentira — desafios contemporâneos

 Pedra de tropeço

 Os Dez Mandamentos e a jornada da evolução (parte 1)

 O sofrimento de Rebeca

 Maria de Nazaré, mãe do Messias e “Mãe Santíssima”

 O vencedor fica com tudo

 Forças vitais “incompletas”

 Humberto de Campos: a espiritualidade como autor encarnado e desencarnado

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