
Exortações evangélico-doutrinárias acerca da vigilância mental
Sandro Drumond Brandão
gruposantoagostinho.bh@gmail.com
O homem vive na ambiência de sua criação mental e convive com as daqueles que o cercam, influenciando e sendo influenciado
Seres inteligentes da Criação, os Espíritos, encarnados ou na condição extracorpórea, têm como único atributo o pensamento.[1] Fonte viva de criação, o pensamento plasmado e emitido pelo Espírito (forma-pensamento) viaja pelo fluido[2] residindo na faixa vibratória com a qual se afina.
Se os pensamentos têm no fluido a sua via de transmissão, é evidente que sobre ele promovem transformações a caracterizar-lhe a sua qualidade. Allan Kardec nos ensina que:
“Sendo esses fluidos o veículo do pensamento e podendo este modificar-lhes as propriedades, é evidente que eles devem achar-se impregnados das qualidades boas ou más dos pensamentos que os fazem vibrar, modificando-se pela pureza ou impureza dos sentimentos. Os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável. Os fluidos que envolvem os Espíritos maus, ou que estes projetam são, portanto, viciados, ao passo que os que recebem a influência dos bons Espíritos são tão puros quanto o comporta o grau da perfeição moral destes.”[3]
O homem vive na ambiência de sua criação mental e convive com as daqueles que o cercam, influenciando e sendo influenciado. Sob o viés individual do pensamento, Emmanuel nos alerta:
“(...) o homem vive no seio das criações mentais a que dá origem. Nossos pensamentos são paredes em que nos enclausuramos ou asas com que progredimos na ascese. Como pensas, viverás. Nossa vida íntima — nosso lugar.”[4]
Pelas suas criações mentais, o homem é capaz de edificar na consciência seu próprio inferno ou o seu céu. O Mestre Jesus Cristo nos chamava atenção sobre os imperativos da vigilância mental, de modo a salvaguardar-nos das contrariedades da vida física, que não nos espera, e das tentações que habitualmente nos oferta:
“Acautelai-vos para que vossos corações não estejam pesados na ressaca, embriaguez e ansiedade da vida [física], e aquele dia venha, repentino, sobre vós.” (Lucas, 21:34)
“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mateus, 26:41)
“Aprendestes que foi dito aos antigos: Não cometereis adultério. Eu, porém, vos digo que aquele que houver olhado uma mulher, com mau desejo para com ela, já em seu coração cometeu adultério com ela.” (Mateus, 5:27 e 28)
O pecado por pensamento é explorado por Allan Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo, em especial, quando afirma:
“A verdadeira pureza não está somente nos atos; está também no pensamento, porquanto aquele que tem puro o coração, nem sequer pensa no mal. Foi o que Jesus quis dizer: ele condena o pecado, mesmo em pensamento, porque é sinal de impureza.”[5]
Mais à frente, o Codificador explica que:
“Duas origens pode ter qualquer pensamento mau: a própria imperfeição de nossa alma, ou uma funesta influência que sobre ela se exerça. Neste último caso, há sempre indício de uma fraqueza que nos sujeita a receber essa influência; há, por conseguinte, indício de uma alma imperfeita. De sorte que aquele que venha a falir não poderá invocar por escusa a influência de um Espírito estranho, visto que esse Espírito não o teria arrastado ao mal, se o considerasse inacessível à sedução.”[6]
Sobre a gênese do pensamento ser de terceiro, é necessário recordar a natureza gregária do ser humano, cujo progresso reivindica a vida de relação, na qual, por meio de nossas ações e palavras, nos influenciamos positiva ou negativamente a todo momento.
Trata-se do aspecto coletivo do pensamento, que é tanto emissor quanto receptor de influxos e estímulos, sendo eles tão mais sedutores quanto o grau de afinidade que compartilham. Disso retiram-se as recomendações do apóstolo da gentilidade:
“Tendo por capacete a esperança na salvação.” Paulo (I Tessalonicenses, 5:8)
“Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda?” Paulo (I Coríntios, 5:6)

“(...) aquele que venha a falir não poderá invocar por escusa a influência de um Espírito estranho, visto que esse Espírito não o teria arrastado ao mal, se o considerasse inacessível à sedução.” (Allan Kardec)
A esse respeito, Emmanuel elucida:
“Os raios de nossa influência entrosam-se com as emissões de quantos nos conhecem direta ou indiretamente, e pesam na balança do mundo para o bem ou para o mal.”[7]
Na ambiência coletiva nós nos educamos para o bem e para o mal.[8] Somos alunos e mestres ao mesmo tempo. Ademais, se o homem é autor ou objeto de influência e, estando ele constantemente rodeado por Espíritos, torna-se simples qualificar os processos obsessivos como mero efeito de sua inferioridade moral.
Na obra Ação e Reação, Leonel em diálogo com Silas assevera que a “obsessão” ou “delírio psíquico”:
“(...) não passa de um estado anormal da mente, subjugada pelo excesso de suas próprias criações a pressionarem o campo sensorial, infinitamente acrescidas de influência direta ou indireta de outras mentes desencarnadas ou não, atraídas por seu próprio reflexo. (...)
“— Cada um é tentado exteriormente pela tentação que alimenta em si próprio.”[9]
A tentação que fomenta em si o homem o torna vulnerável à sua superalimentação com excitações constantes promovidas pela vontade dos adversários, fazendo dele presa de seus jogos alucinatórios.
A invigilância mental é situação grave do Espírito a reivindicar dele imediato reparo.
A prece nesse contexto ganha papel fundamental, pois atrai a assistência de bons Espíritos, a servir de antemural às investidas dos verdugos; na higienização dos pensamentos e enquanto procedimento de introspecção[10] corajosa, refletida e imparcial do ser de modo a identificar a gênese de suas fragilidades.
Há, ainda, a instrução e a caridade como ferramentas importantes no zelo pelo campo mental. A leitura edificante conduz o pensamento do homem às altas faixas vibratórias, além de instruí-lo a respeito dos efeitos nefastos causados pelas influências negativas. Já a dedicação ao próximo previne o homem de episódios de autopiedade e melancolia; atrai a assistência de Espíritos que com ele simpatizam; eleva o seu pensamento e refina a sua balança de valores e predileções.
A guarda do pensamento refere-se a uma atitude permanente, a um modo de ser da alma, assim como a alimentação é atitude vital para o corpo.[11]
- “89. Os Espíritos gastam algum tempo para percorrer o espaço? — Sim, mas fazem-no com a rapidez do pensamento.”
“a) O pensamento não é a própria alma que se transporta? — Quando o pensamento está em alguma parte, a alma também aí está, pois que é a alma quem pensa. O pensamento é um atributo.”
- “Sendo os fluidos o veículo do pensamento, este atua sobre os fluidos como o som sobre o ar; eles nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode-se pois dizer, sem receio de errar, que há, nesses fluidos, ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e vibrações sonoros.” (KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Salvador Gentile. Brasília: IDE, 1997. p. 247)
- KARDEC, Allan. A Gênese. Trad. Salvador Gentile. Brasília: IDE, 1997. p. 247–248.
- XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2000. p. 166.
- KARDEC Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. Brasília: FEB, 2018. p. 125.
- Ibidem. p. 341.
- XAVIER, Francisco Cândido. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2000. p. 88.
- Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. (Mateus, 5:19)
- XAVIER, Francisco Cândido. Ação e Reação. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 2003. p. 110.
- “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé” (2 Timóteo, 4:7).
- E disse-lhe o diabo: Se tu és o Filho de Deus, dize a esta pedra que se transforme em pão.
E Jesus lhe respondeu, dizendo: Está escrito que nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra de Deus. (Lucas, 4:3–4).
- DIAS, Haroldo Dutra (Trad.), 1971. O Novo Testamento. Trad. Haroldo Dutra Dias. 1.ed. 11.imp. Brasília: FEB, 2020.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Salvador Gentile; rev. Elias Barbosa. 182.ed. Araras: IDE, 2009.
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