
O grão de trigo e a reencarnação
Mário Frigéri
frigerimario@gmail.com
O grão de trigo é o símbolo do cristão que morre no Senhor e frutifica para a vida eterna
Jesus contava muitas parábolas relacionadas ao Reino dos Céus para ensinar aos homens o caminho que os levaria a esse Reino. E entre as parábolas mais sugestivas está a do grão de trigo: “Em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto” (João, 12:24).
Notemos, inicialmente, a pedagogia incomparável de Jesus e os recursos discursivos que empregava, a fim de transmitir com divina propriedade sua mensagem dirigida aos corações humanos. Sempre que ia iniciar um ensinamento precioso (todos eram preciosos, mas alguns tinham de impactar mais fortemente as almas), utilizava-se da fórmula “Em verdade vos digo”. Ao ouvirem essa expressão, os ouvintes sabiam que algo alvissareiro estava para ser enunciado. E sempre que encerrava um ensinamento precioso, a chave de que se valia para fixá-lo no coração da assistência era: “Veja quem tem olhos de ver e ouça quem tem ouvidos de ouvir”. Ao ouvir isso, os ouvintes procuravam reter na memória, com a máxima nitidez, a mensagem que acabava de ser dada.
A parábola do grão de trigo foi iniciada com o sugestivo “Em verdade vos digo”. O grão de trigo parece uma coisinha inerte, mas está cheio de vida latente e pulsante. Ele tem uma crista, que é o seu sistema respiratório. Tem a casca, que é a parte fibrosa protetora do endosperma. Tem o endosperma, que é o tecido nutritivo rico em substâncias alimentares, e que constitui mais de 80 por cento do grão. E tem o gérmen, que é a célula de onde nascerá uma nova plântula.
Ao falar do grão de trigo lançado à terra, Jesus o estava comparando ao Espírito reencarnante, porque este também, ao preparar-se para o processo reencarnatório, tem seu corpo espiritual (ou perispírito) restringido até transformar-se em uma pequenina semente. E, nesse estado, o Espírito está reduzido à vida latente, na condição de um “morto” que pulsa. Ao ser ligado ao útero materno, começa o desenvolvimento embrionário de seu corpo físico, que se forma à medida que o perispírito se desata magneticamente, assim como o grão de trigo começa a sua germinação no seio da terra quando passa a receber dela os sucos nutrientes.
Se o grão de trigo não “morrer” no seio da terra, não germinará e fatalmente apodrecerá. Mas se “morrer”, germinará, crescerá, florescerá e frutificará, produzindo a cento por um. Da mesma forma, o Espírito endividado perante a Lei tem de “morrer” no solo fértil da matéria, a fim de desenvolver-se, ressarcir a prestações o que deve e frutificar a cento por um.
Como toda comparação é falha, há uma diferença entre o grão de trigo e o Espírito encarnado. A diferença é que basta ao grão “morrer” para frutificar a cento por um (submetido que está ao automatismo das leis naturais), mas ao Espírito encarnado não basta “morrer” para que ocorra essa frutificação no bem, porque — coroado como está pela sagrada conquista das faculdades da razão e do livre-arbítrio — ele tem que morrer no Senhor para produzir os frutos anunciados. E para o reencarnante morrer no Senhor, ele tem de morrer para o mundo e frutificar com o Senhor, assim como a semente morre para a terra e, bracejando para libertar-se dos entraves do solo, frutifica para o céu. Reencarnar e viver para as ilusões da carne é “morrer fora do Senhor”, desperdiçar a existência e partir mais onerado que antes, quando aqui chegou. A ordem é estar no mundo sem ser do mundo.
Quem são os mortos
Que os encarnados são os “mortos” (aqueles cujas consciências ainda estão adormecidas), a palavra do Senhor não deixa dúvida:
- Quando Jesus disse a um de seus ouvintes que o seguisse, ele pediu que lhe fosse permitido ir primeiro sepultar seu pai. “Deixa aos mortos o cuidado de sepultar os seus próprios mortos” — responde-lhe o Cristo. “Tu, porém, vai e prega o reino de Deus” (Lucas, 9:59–60). Ele designou por “mortos” os parentes “vivos” do futuro discípulo.
- Disse também Jesus que quem ouve a sua palavra e crê naquele que o enviou, já passou da morte para a vida, e que já chegara a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão: “Não vos maravilheis disto, porque vem a hora em que todos os que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo” (João, 5:24–29). Ao dizer “os que se acham nos túmulos”, o Cristo se referia aos Espíritos encarnados nos túmulos vivos dos corpos físicos, porque nos túmulos do cemitério ninguém ouvirá nada, visto que lá só existem corpos em putrefação.
- Quando Jesus soube que João Batista fora preso, retirou-se para os confins de Zebulom e Naftali, para que se cumprissem as Escrituras: “Terra de Zebulom, terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios! O povo que jazia em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte resplandeceu-lhes a luz” (Mateus, 4:12–15). A “região da sombra da morte” é a Crosta terrestre, onde vivem os encarnados ou “mortos”, submersos em consciência de sono: para eles é que resplandeceu a luz do Cristo.

Ao falar do grão de trigo lançado à terra, Jesus o estava comparando ao Espírito reencarnante, porque este também, ao preparar-se para o processo reencarnatório, tem seu corpo espiritual (ou perispírito) restringido até transformar-se em uma pequenina semente
A reencarnação só traz proveito para o Espírito quando é vivida à luz do Evangelho, alçando-o da morte para a vida. É o que aprendemos com elevados mentores espirituais, como este transcrito abaixo, que, através de fluidos teledinâmicos, transmitiu a seguinte lição a seus irmãos encarnados:
“Não vale encarnar-se ou desencarnar-se simplesmente. Todos os dias, as formas se fazem e se desfazem. Vale a renovação interior com acréscimo de visão, a fim de seguirmos à frente, com a verdadeira noção da eternidade em que nos deslocamos no tempo.”[1]
É o que aprendemos também com as reflexões de André Luiz, como neste seu profundo raciocínio:
“Uma existência é um ato.
“Um corpo — uma veste.
“Um século — um dia.
“Um serviço — uma experiência.
“Um triunfo — uma aquisição.
“Uma morte — um sopro renovador.
“Quantas existências, quantos corpos, quantos séculos, quantos serviços, quantos triunfos, quantas mortes necessitamos ainda?”[2]
Ao renascer e “morrer no Senhor”, o Espírito frutifica a cento por um e, ao retornar à pátria espiritual, “descansa de suas fadigas”, porque as obras que realizou no bem o acompanham na Eternidade, como um feliz atestado de sua integração na Lei divina. A esses Vencedores da morte na carne é que Jesus destinou esta Bem-Aventurança: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham” (Apocalipse, 14:13).
Quem morre no Senhor ao nascer, nasce para a Luz divina ao morrer.
- XAVIER, Francisco Cândido. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 8.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1976. Cap. 13, “Pensamento e mediunidade”, p. 119.
- Idem. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. 20.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1978. “Mensagem de André Luiz”, p. 14.
O autor é poeta e escritor pelo coração e operador do Direito por profissão. Reside atualmente em Campinas, SP.
Grão de trigo
Se, ao cair no chão, o grão de trigo
Não perecer, fica ele só na terra;
Mas se morrer, sua alma se descerra
E a cem por um produz em seu jazigo.
É um “morto” ativo que tomou da cruz,
Após negar seu ego neste plano.
Perdeu a vida — no conceito humano;
Ganhou a vida — segundo Jesus.
Quem não ajunta com Jesus, espalha.
Ciente, pois, da luz que em ti floreia,
Ergue bem alto do Evangelho a tocha.
E enquanto os “vivos”, na mais vã batalha,
Armam castelos de cartas na areia,
Sê tu aquele que constrói na rocha.
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