
Quando o bem chega antes
Sidney Fernandes
1948@uol.com.br
A prática do bem, como único objetivo da vida, pode minimizar dores, comutar sofrimentos, resgatar compromissos e permitir que o homem usufrua de momentos felizes
Numa interpretação rigorista, podemos afirmar que os responsáveis por males cometidos sofrerão exatamente as mesmas dores que provocaram? Matematicamente, deverão pagar ceitil por ceitil, na exata proporção e intensidade das dores de que foram os autores? Deverão sofrer os mesmos desajustes que provocaram?
Há, infelizmente, situações em que por mais persuasivos sejam os engenheiros da espiritualidade, por mais esforços de despertamento tenham empreendido, por mais que oportunidades de reajuste através do bem tenham sido oferecidas, ainda assim a alma endividada permanece insensível e desinteressada, isto é, empaca na espiritualidade, em verdadeira situação de laissez-faire, recusando a moeda do bem. Nesses casos, tornam-se necessárias drásticas medidas compulsórias, na precisa medida da rebeldia apresentada.
Excetuando-se essas reencarnações coercitivas, isto é, goela abaixo, não serão os Espíritos superiores, nem a Lei Divina, que agirão implacavelmente sobre os Espíritos devedores. À medida que o torniquete do remorso vai sendo mais sentido, os doentes da alma detectam, em si próprios, a incapacidade de perdoar-se. Os erros voluntários cometidos dão surgimento ao que André Luiz chama, no capítulo 19 de seu livro Evolução em Dois Mundos, de “sementes do destino”, que se entranham nos Espíritos que se reconhecem necessitados de limpeza espiritual, a fim de se colocarem em condições de promoção a níveis mais nobres.
As “sementes do destino” citadas por André Luiz agirão por si só, no âmago dessas almas, que, de repente, se sentirão numa espécie de dissonância cognitiva, a ponto de elas mesmas, de moto-próprio, incomodadas pelos pontos de desajustes, rogarem por novas experiências na carne, que lhes possibilitarão o almejado reajuste, último passo em direção à reparação das falhas cometidas.
Não podemos, todavia, incorrer em visão rigorista, do olho por olho, dente por dente, lamentavelmente ainda necessária em estágios mais inferiores da criação. Desagradam aos Espíritos superiores os nossos sofrimentos,[1] e eles permitem que aconteçam somente quando se esgotam os recursos do bem e da boa vontade, isto é, quando optamos, por livre escolha, pela moeda da dor. No entanto, ainda assim, fundamental citarmos preciosa alternativa apresentada pelos Espíritos, em resposta a outro questionamento de Allan Kardec:[2]
“Pode o homem, pela sua vontade e por seus atos, fazer que se não deem acontecimentos que deveriam verificar-se e reciprocamente?”
A resposta dos Espíritos representa a Misericórdia Divina, atestado comprobatório de que a prática do bem, como único objetivo da vida, pode minimizar dores, comutar sofrimentos, resgatar compromissos e permitir que o homem usufrua de momentos felizes, tanto quanto possível, pois ele é quase sempre obreiro da sua própria infelicidade.[3]
Afirma Irmão X, no livro Estante da Vida, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, que “o mal não precisa resgatar o mal, quando o bem chega antes”. Ainda que mínimo, qualquer gesto de empatia, acompanhado de generosidade, é parcela que minimiza ou anula situações de reajuste, expiação, dor ou dificuldade.
Da mesma forma, ensina-nos Emmanuel, no livro Perante Jesus, que “toda vez que a Justiça Divina nos procura no endereço exato para execução das sentenças que lavramos contra nós próprios, segundo as leis de causa e efeito, se nos encontra em serviço ao próximo, manda a Divina Misericórdia que a execução seja suspensa, por tempo indeterminado”.
Relembra-nos o sábio exegeta a frase contida na 1ª Epístola de Pedro (4:8), quando diz que o amor cobre uma multidão de pecados. Em outras palavras, a Misericórdia Divina tem instrumentos para contrabalançar todo mal equivocado cometido. Ilustrando esses ensinamentos, julgamos oportuno trazer a experiência de Vicente Curi, revelada por Hilário Silva na lição “A Moratória”,[4] que aqui reproduzimos resumidamente.
***
Certa manhã, Vicente Curi, empreiteiro de obras, levantou doente e abatido. Justamente no dia da demolição de um prédio que adquirira. Tentou erguer-se, mas não conseguiu. A esposa, Mercedes, mulher equilibrada e de muita fé, recomendou oração e serenidade. Mal ouviu aquelas recomendações, ele surpreendeu-se com as notícias de funcionário que, junto dos colegas, iniciara o trabalho da demolição: a casa velha ruíra e desabara em cima dos pés de um dos operários. Vicente disparou:
— De que adianta, Mercedes, confiar na Providência Divina? — gritou, frenético.
Como as dores se acentuaram, Curi pediu que a esposa lhe aplicasse injeção antitóxica que havia guardado na gaveta. Quando ela foi preparar a aplicação, a última ampola estatelou-se no chão.
Vicente novamente enraiveceu-se, rogando pragas.
As costas doíam muito. Enfermeira vizinha se predispôs a lhe aplicar ventosas acima dos rins. Copos de vidro, algodão e fósforos foram trazidos ao quarto. De repente, algodão inflamado escapou e o fogo se espalhou pelos lençóis. Imediatamente, enorme escorpião, que se havia instalado no colchão, saiu correndo com o ferrão em riste.
Ao ouvir a esposa falar novamente em amparo divino, o doente esbravejou, sentindo-se perseguido.
À noite, dona Mercedes sugeriu que fossem ao centro espírita, pois o marido precisava de socorro moral, por meio do reconfortante passe magnético. Quando se dirigiam ao ponto de ônibus, viram o veículo partir.
— Era o que faltava — disse, furioso, Vicente Curi.
Não queria mais o passe, mas a esposa insistiu e ele concordou em tomar um táxi.
Quando estavam entrando no templo, um moço muito pálido chegou às pressas. Pediu, em voz alta, orações para as vítimas de um desastre. O ônibus que Vicente havia perdido capotara, com quatro mortos e dez feridos.
Mercedes olhou significativamente para o marido, que, naquele momento, sentiu o recado mudo. Mesmo em silêncio, em respeito à reunião pública que já se iniciara, a fervorosa mulher agradeceu a Providência Divina.
Depois do passe, voluntário chamou Vicente e revelou que acabara de chegar comunicação mediúnica, a ele dirigida, com importante recado. Ele ouviu a leitura atenciosamente, de cabeça baixa, ao lado da prestimosa esposa:
— Meu irmão, não reclame. Hoje, por quatro vezes, você se rebelou contra a Providência Divina, ao passo que, por quatro vezes, a Divina Providência o arrebatou às garras da morte. Sua ficha de Espírito devedor marcava para hoje sua desencarnação, rude e violenta. Você esteve à bica de ser esmagado pelo prédio que veio a cair; de ser envenenado pela ampola que trazia líquido alterado; de ser picado por um escorpião e de ser estrangulado na engrenagem do coletivo menos feliz... Entretanto, Vicente, em atenção aos seus gestos de caridade, amigos espirituais do caminho advogaram-lhe a causa. Você mereceu amparo, na Lei, como alguém que consegue moratória no banco. Volte para casa e descanse a cabeça teimosa. O socorro de Deus nem sempre tem a forma de flor ou a rutilância da luz. Volte e agradeça os contratempos e dissabores do dia. Serenidade é remédio em cada remédio.
Vicente enxugou os olhos úmidos... Terminada a sessão, regressou à casa, tranquilo. Reconciliara-se consigo, e, tornando ao leito, que recebia agora por bênção doce e reconfortante, orou, agradecido, por ter aquela devotada esposa e, sem dúvida, pela moratória recebida do Alto, que abençoou sua vida.

Ainda que mínimo, qualquer gesto de empatia, acompanhado de generosidade, é parcela que minimiza ou anula situações de reajuste, expiação, dor ou dificuldade
Lei de Causa e Efeito
Ensina-nos André Luiz:[5] “Quantas intercessões da prece ardente conquistam moratórias oportunas para pessoas cujo passo já resvala no cairel do sepulcro?!... Quantos deveres sacrificiais granjeiam, para a alma que os aceita de boamente, preciosas vantagens na Vida Superior, onde providências se improvisam para que se lhes amenizem os rigores da provação necessária?! Bem sabemos que, se uma onda sonora encontra outra, de tal modo que as ‘cristas’ de uma ocorram nos mesmos pontos dos ‘vales’ da outra, esse meio, em consequência aí não vibra, tendo-se como resultado o silêncio. Assim é que, gerando novas causas com o bem, praticado hoje, podemos interferir nas causas do mal, praticado ontem, neutralizando-as e reconquistando, com isso, o nosso equilíbrio”.
A Lei de Causa e Efeito é inexorável? Sim, e assim permanecerá imperecível, imorredoura e irrevogável, mas tão somente em relação aos que insistem em desafiar a Divindade. Não, todavia, para os que se dispõem à caridade, ao estudo nobre, que cultivam a fé, o otimismo e o trabalho e assumem os temas renovadores dos nossos destinos.
Encerremos com as palavras do prefácio de Emmanuel no livro Falando à Terra: “A gazela desperta com o canto do pássaro, mas a rocha com a explosão da dinamite”. Fujamos do orgulho e da resistência, escolhendo caminhos amenos. Despertemos para a suavidade do caminho, servindo e ajudando, em obediência às Leis do Senhor, na certeza de que jamais seremos desamparados pela Misericórdia Divina.
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 18.ed. FEB, 1942. Cap. X, questão 859.
- Ibidem. Questão 860.
- Ibidem. Parte quarta. Cap. 1, questões 920 e 921.
- XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. A Vida Escreve. Pelo Espírito Hilário Silva. 3.ed. FEB, 1978. Lição 20, “A Moratória”.
- XAVIER, Francisco Cândido. Ação e Reação. Pelo Espírito André Luiz. 15.ed. FEB, 1993. Cap. 18, “Resgates coletivos”.
O autor é orador e escritor espírita, diretor e colaborador do CEAC - Centro Espírita Amor e Caridade de Bauru, SP. Publicou, entre outros, "A irresistível força do amor" (Ed. O Clarim).
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