Maio | 2026

Transformação versus transmutação espiritual

Cristian Bazanella Longhinoti

longhinoti@gmail.com

Uma jornada individual de busca, um processo interior que nos faz melhorar a tal ponto que o nosso antigo ser não nos pertence mais

 

Não raro se ouve de frequentadores e estudantes da Doutrina Espírita que o Espiritismo transformou a sua vida. Todavia, sabemos o real significado de transformação? Transformação, segundo o dicionário Michaelis, significa “Ação ou efeito de transformar(-se)” ou ainda “Mudança que ocorre em algo ou em alguém”.

A transformação é uma parte da nossa evolução espiritual, a qual nos exige constante aprimoramento e correção no caminho do nosso desenvolvimento, que é exatamente o que visa a educação espírita. O ser passa a transformar-se, a modificar seus caracteres, condutas e materializar o contido em uma das Leis Espirituais transcritas na terceira parte de O Livro dos Espíritos,[1] que é a Lei de Progresso.

Quando nos transformamos através da Doutrina Espírita, acabamos por mudar certos hábitos, abandonar alguns vícios, buscar o melhoramento confortável em nossas vidas, ou seja, tudo aquilo que não nos obriga a grandes sacrifícios, restando o que toleramos como atos de Espíritos imperfeitos que somos. Porém, resta a dúvida: é suficiente esta nossa mudança pela metade? É suficiente nos adaptarmos à Doutrina até onde nos convém? Onde está a verdadeira transformação que muitas vezes nos orgulhamos de afirmar aos outros e a nós mesmos?

A transformação é uma mudança interna ou externa, porém o sujeito continua o mesmo, sem alterar a sua essência. Ainda assim, não podemos menosprezar a sua importância, o primeiro estágio da nossa evolução. É o início da nossa jornada espiritual de aprimoramento e correção de vícios, marcada por oscilação e conflitos internos, revelando as nossas dificuldades em aceitar-nos e livrar-nos das más tendências, gerando críticas a nós mesmos e aos outros. Portanto, há que se dar o devido valor à transformação espiritual, pois conforme Emmanuel no livro Caminho, Verdade e Vida:

“O trabalho de purificar não é tão simples quanto parece. Será muito fácil ao homem confessar a aceitação de verdades religiosas, operar a adesão verbal a ideologias edificantes. Outra coisa, porém, é realizar a obra da elevação de si mesmo, valendo-se da autodisciplina, da compreensão fraternal e do espírito de sacrifício.”[2]

O passo seguinte da transformação acontece quando o indivíduo tem maior consciência da sua necessidade em permanecer firme na sua melhora espiritual, esforçando-se em combater as suas imperfeições e melhorar e desenvolver as suas virtudes, compreendendo que sacrifícios são necessários para chegar ao seu objetivo. É a chamada transmutação.

Transmutação, segundo o dicionário, significa “transformar-se em outra natureza, substância, forma ou condição”.

Na filosofia e na espiritualidade, a lei da transmutação é aplicada para ensinar que podemos modificar nossas emoções, pensamentos e comportamentos, elevando nossa consciência e evoluindo espiritualmente.

Transmutar-se é ter a certeza de que, mesmo como Espíritos menores que somos, podemos nos elevar e deixar de ter consciência parcial para adquirir consciência integral

Essa transmutação não é o mesmo que inserir-se em uma ideia de mudança ou de uma aprendizagem superficial, mas, sim, uma verdadeira viagem interior na qual, no fim, o indivíduo já não se reconhece em si mesmo a ponto de abandonar o seu antigo eu e abraçar a sua nova versão completamente transmutada. É uma jornada individual de busca, um processo interior que nos faz melhorar a tal ponto que o nosso antigo ser não nos pertence mais.

A transmutação nos coloca em adiantamento moral, revelando-nos nossa verdadeira identidade e afastando-nos da periferia dos pensamentos mundanos, quando deixamos de ser homem parcial para nos tornar homem integral. O ego, o orgulho e a vaidade são abandonados, entregamo-nos e vivenciamos os princípios da Doutrina Espírita e deixamos, assim, mais claros os fins e objetivos da nossa missão espiritual.

Transmutar-se é ter a certeza de que, mesmo como Espíritos menores que somos, podemos nos elevar e deixar de ter consciência parcial para adquirir consciência integral.

A Doutrina Espírita tem o condão de proporcionar essa transmutação, preparando o terreno, penetrando em nós gradativamente, despertando nossa consciência a tal ponto que somente a transformação já não é suficiente. É necessário causar uma transmutação em nós.

Destacamos o trecho da Revue Spirite de julho de 1866: “(...) O Espiritismo não tem o privilégio de transformar subitamente a Humanidade, e se a gente pode admirar-se de uma coisa, é do número de reformas que ele já operou em tão pouco tempo. Ao passo que nuns, onde encontra o terreno preparado, ele entra, por assim dizer, de uma vez, noutros só penetra gota a gota, conforme a resistência que encontra no caráter e nos hábitos.”[3]

Em O Livro dos Espíritos, questão 919,[1] ao responderem “conhece-te a ti mesmo”, os Espíritos revelam a necessidade do conhecimento da nossa própria identidade, do ser fundamental, que é atingida pela transmutação do indivíduo através da reforma íntima e do autoconhecimento.

Então fica a pergunta: o que o Espiritismo espera de nós — uma transformação ou uma transmutação?

 

  1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 1.ed. Araras: IDE, 2021.
  2. XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, verdade e vida. Pelo Espírito Emmanuel. 28.ed. Rio de Janeiro: FEB, 2009. Capítulo 18, p. 52.
  3. KARDEC, Allan. Revue Spirite. Do Projeto de Caixa Geral de Socorro e outras Instituições para os Espíritas, de julho de 1866.

 

O autor é advogado e expositor espírita no Centro Espírita Obreiros do Senhor, em Itaqui, RS.

maio | 2026

MATÉRIA DE CAPA

RIE – maio/2026

Quando a nossa mudança de essência é definitiva?

Lista completa de matérias

 Amor que educa

 Carta ao Leitor – maio/2026

 Uma questão de método

 A atuação espírita de meus pais: Sérgio e Esther Lourenço – Entrevista com Silas Lourenço

 O animismo e a mediunidade

 Quando o cireneu sou eu

 Doenças provocadas em outras reencarnações

 Novos e incomensuráveis horizontes

 As revelações divinas e os desafios de sua realização na transição planetária

 Um tipo oculto de mediunidade

 O suicídio indireto

 A guerra no Oriente Médio e a consciência espiritual da humanidade

 Mágoa, ressentimento e perdão

 Transformação versus transmutação espiritual

 A reforma íntima como fenômeno coletivo

 Ateísmo religioso

 O jovem e o lenço

 Além da morte

 EQM e Espiritismo

 O espírita e o batismo

 IA e os espíritas

 Progressos, cautelas e riscos com a inteligência artificial

 Infância pede direção e presença