Outubro | 2019

O mundo invisível na literatura da fantasia

Fausto Fabiano da Silva

faustofabianodasilva@yahoo.com.br

Há algo em nós que recusa uma dimensão inteiramente material, justamente porque não somos somente matéria

 

Este estudo pretende revelar a sutil sobrevivência, na memória do Espírito encarnado, das coisas que ele viu, ouviu, ou mesmo sentiu, de quando esteve no mundo espiritual[1] e a contribuição desta memória na construção das obras literárias de fantasia[2]. Para isto, começaremos com as palavras do próprio Kardec: “Os contos de fadas estão sem dúvida cheios de coisas absurdas. Mas não seriam eles, em alguns pontos, a pintura do que se passa no mundo dos Espíritos?”[3]

Podemos teorizar o porquê de Kardec ter escolhido o conto de fadas como exemplo de literatura que tivesse elementos ou princípios existentes na pátria espiritual. A literatura de fantasia, sendo ficção, não seria compreendida como ameaça à mentalidade da época. Dificilmente seriam queimados livros de contos de fadas em praça pública, como ocorreu com O Livro dos Espíritos[4], estando os autores, por isto, mais livres para usar sua criatividade, sua imaginação, abrindo-se um canal em que a intuição profunda das coisas espirituais pudesse manifestar-se mesmo inconscientemente.

Mas será possível encontrar alguma coisa, que se passa na vida após a morte, na literatura de fantasia? Sim, é possível. Vejamos alguns exemplos.

Mudança da matéria. Na literatura, alguns personagens mágicos, como bruxas, fadas, magos ou gênios podem alterar ou transformar a forma das coisas materiais, como uma abóbora numa carruagem, ou seja, produzir coisas a partir de outras. Para nós, é o princípio que se esconde atrás destas fantasias que importa. E este princípio diz respeito ao poder da manipulação da matéria pelos Espíritos desencarnados. Lemos em O Livro dos Médiuns: “(...) o Espírito tem sobre os elementos materiais espalhados por toda a parte no espaço, na vossa atmosfera, um poder que estais longe de suspeitar. Ele pode, à sua vontade, concentrar estes elementos e lhes dar a forma aparente própria aos seus projetos.”[5]

A simbologia luz e trevas. De uma maneira geral, nas histórias, o mal combina com a escuridão e o bem com a luz. Devemos nos perguntar se isto se dá somente por questões psicológicas ou culturais, ou se existe o apoio da memória do Espírito que se revela por uma espécie de intuição das realidades espirituais.

No livro de Kardec, O Céu e o Inferno, descobrimos o seguinte relato de regiões bastante adiantadas no mundo dos Espíritos: “Pode-se entrever, no infinito incomensurável, as regiões resplandecentes do fogo divino, chegando-se mesmo a ofuscar-se ao contemplá-las através do véu que ainda as envolve.”[6] Notemos que as palavras “fogo” e “resplandecente” lembram luminosidade, energia. Ora, se é assim para as regiões com Espíritos mais evoluídos, o contrário também é verdadeiro. Outra vez, no livro O Céu e o Inferno, temos agora o relato de um Espírito sofredor: “(...) formas sombrias e desoladas, mergulhadas umas em tedioso desespero; furiosas ou irônicas outras, deslizavam em torno de mim...”[7] Os próprios Espíritos podem também apresentar uma irradiação com coloração. Na questão 88 de O Livro dos Espíritos lemos: “Para vós, ela varia do escuro ao brilho do rubi, de acordo com a menor ou maior pureza do Espírito.” Concluímos, portanto, que a simbologia luz e trevas pode ter sido construída com o auxílio de uma memória intuitiva conseguida através das experiencias vividas pelo Espírito desencarnado, quando ele viu ocasionalmente almas iluminadas e outras em sofrimento.

A oposição entre o belo e o feio. Normalmente temos como certo que a maldade tem relação com a feiura e o medo. Por isto, é natural o personagem maléfico ter algo de assustador. Já a criatura do bem dificilmente será horripilante e pavorosa. Mas será esta intuição apenas fruto de nossa imaginação? Provavelmente não, pois guarda similaridade na realidade do mundo dos Espíritos. Kardec escreve: “Os Espíritos superiores têm uma figura bela, nobre e serena; os mais inferiores, alguma coisa de selvagem e de bestial...”[8]

O poder de voar. Através do Espiritismo sabemos que os Espíritos, de uma maneira geral, não ficam presos ao solo terreno com os encarnados. Nós praticamente rastejamos se nos compararmos aos desencarnados. A liberdade que os Espíritos gozam de ir e vir, dependendo de sua evolução, a capacidade de flutuar, percorrendo os espaços, é fantástica. Na questão 89 de O Livro dos Espíritos lemos: “Os Espíritos gastam algum tempo para atravessar o espaço? R: Sim; mas rápido como o pensamento.” O livro O Céu e o inferno contém a seguinte descrição do Espírito Joseph Maître que cita Espíritos pairando do espaço: “(...) ao entrever as claridades celestes, distinguindo os Espíritos que me rodeavam, sorrindo, benévolos, bem como aqueles que, radiosos, flutuavam no Espaço.”

Não é estranho, portanto, que na literatura de fantasia haja personagens que voam. O ser humano encarnado, preso a um corpo limitado de carne e osso, guardaria uma nostalgia indefinida, um desejo intenso pela liberdade que momentaneamente não desfruta. Não podendo voar, cria, através de sua imaginação, personagens que têm esta capacidade.

Durante todo o tempo da história humana, a imaginação não ficou dentro das quatro paredes da vida rotineira e comum dos homens, ela sempre deu um jeito de se inclinar para a dimensão da fantasia. Por que será? Porque a dimensão humana material não consegue definir tudo aquilo que nós somos, em outras palavras, a matéria é incapaz de definir a natureza profunda do ser humano. Há algo em nós que recusa uma dimensão inteiramente material, justamente porque não somos somente matéria. Ora, as expressões do ser humano nas artes e na literatura são expressões também do seu Espírito imortal.

 

  1. Ler questão 959 de O Livro dos Espíritos: Donde nasce para o homem o sentimento instintivo da vida futura? R: Já o dissemos, antes de encarnar, o Espírito conhecia todas essas coisas e a alma conserva uma vaga lembrança do que sabe e do que viu no estado espiritual.
  2. Fantasia é um gênero da ficção em que se usa geralmente fenômenos sobrenaturais, mágicos e outros como um elemento primário do enredo, tema ou configuração.
  3. No Livro O Céu e o Inferno em Espíritos Felizes, Sanson. Segunda Parte, Capítulo II.
  4. No dia 9 de outubro de 1861, em Barcelona, Espanha, às 10 horas e 30 minutos, foram queimados, por ordem do bispo local, trezentos livros que tratavam do Espiritismo, entre eles O Livro dos Espíritos. Ler Revista Espírita de novembro de 1861, em “Resquícios da Idade Média”.
  5. Ler O Livro dos Médiuns, Capítulo VIII, item 128.
  6. Ler O Céu e o Inferno em Um Médico Russo. Segunda Parte, Capítulo II.
  7. Ler O Céu e o Inferno na descrição do Espírito Novel. Segunda Parte, Capítulo IV.
  8. Ler O Livro dos Médiuns, Capítulo VI, item 102.

 

- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 8.ed. São Paulo: Ed. FEESP, 1995.

- KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 10.ed. São Paulo: LAKE, 2002.

- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. 1.ed. Rio de Janeiro: CELD, 2010.

- KARDEC, Allan. Revista Espírita. Novembro de 1861, Araras: IDE, 1993.

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